Política

Inelegibilidade, anistia e sucessão: como a direita deve se reorganizar sem Bolsonaro

Condenação no STF amplia inelegibilidade de Jair Bolsonaro até 2062 e abre disputa pela liderança da direita entre Michelle, Tarcísio e outros nomes

Ex-presidente Jair Messias Bolsonaro - @Reprodução
Ex-presidente Jair Messias Bolsonaro - @Reprodução

A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e 3 meses de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe de Estado, redefiniu o futuro da política brasileira. Além da pena em regime fechado, que ainda depende do trânsito em julgado, Bolsonaro também foi declarado inelegível até 2062, praticamente encerrando sua trajetória eleitoral.

A decisão fortaleceu debates sobre uma possível anistia no Congresso e escancarou a disputa pela sucessão dentro da direita, que já busca um novo líder para se contrapor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026 e além.

 

Jair Messias Bolsonaro - @Reprodução

Jair Messias Bolsonaro – @Reprodução

Bolsonaro já estava fora das urnas desde 2023, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o condenou por abuso de poder político e uso indevido da comunicação pública. Essa primeira decisão o tornava inelegível até 2030. Com o julgamento do STF, a punição foi estendida por mais de três décadas.

Isso significa que o ex-presidente não poderá disputar eleições até 2062, período em que terá 107 anos de idade. Na prática, a direita brasileira perdeu sua principal figura eleitoral, responsável por mobilizar milhões de eleitores em 2018 e 2022.

Sem Bolsonaro nas urnas, o campo conservador terá de se reorganizar, redefinindo estratégias e buscando novos nomes que consigam herdar seu eleitorado fiel.

A pauta da anistia volta ao centro

Diante da condenação, parlamentares do PL e aliados reforçaram a defesa de uma anistia ampla, geral e irrestrita, que poderia alcançar tanto manifestantes do 8 de janeiro quanto os líderes acusados de articular a tentativa de golpe. Nesse cenário, Bolsonaro poderia inclusive ter seus direitos políticos restaurados.

Outra ala do partido, porém, defende uma proposta mais restrita, voltada apenas para os participantes dos atos de invasão e depredação em Brasília. Essa versão teria mais chances de avançar, já que reduziria a resistência jurídica e política.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem sido pressionado a pautar a urgência da proposta. No Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) já sinalizou que não pretende abrir espaço para uma anistia ampla, avaliando apenas alternativas mais brandas.

Enquanto isso, governadores ligados à direita, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), intensificaram articulações em Brasília para manter a pauta viva. Ainda assim, analistas apontam que a aprovação de uma anistia que beneficie diretamente Bolsonaro enfrentaria forte resistência do Judiciário e parte da sociedade.

Zema e Bolsonaro | © Reprodução

Zema e Bolsonaro | © Reprodução

A disputa pela sucessão no campo da direita

Com a inelegibilidade consolidada, a disputa pela liderança da direita já está em curso. Três nomes despontam como alternativas:

  • Michelle Bolsonaro (PL-DF): ex-primeira-dama, carismática e ligada ao eleitorado evangélico, tem se movimentado como herdeira natural do bolsonarismo. Sua proximidade com a base religiosa é vista como trunfo, mas sua inexperiência política pode ser um desafio.
  • Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP): governador de São Paulo e ex-ministro da Infraestrutura, é apontado como candidato competitivo em 2026. Tarcísio tenta equilibrar sua imagem de gestor técnico com a ligação ao bolsonarismo, sem herdar diretamente os desgastes do ex-presidente.
  • Ratinho Júnior (PSD-PR): governador do Paraná, aposta em uma plataforma conservadora com foco em gestão e desenvolvimento regional. Ainda que tenha menos projeção nacional, aparece como nome viável em uma disputa futura.

Além deles, figuras como Romeu Zema (Novo-MG) e Eduardo Leite (PSDB-RS) também são lembradas em conversas sobre alianças que podem se formar em um cenário de ausência de Bolsonaro.

O futuro da direita sem Bolsonaro

A condenação e a inelegibilidade prolongada obrigam a direita brasileira a repensar seu futuro. Sem a presença direta do ex-presidente nas urnas, o movimento conservador terá de equilibrar duas frentes: manter o legado do bolsonarismo como força de mobilização e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas lideranças que consigam dialogar com diferentes setores da sociedade.

Ainda que a anistia seja debatida no Congresso, o cenário jurídico e político aponta que Jair Bolsonaro dificilmente retornará às disputas eleitorais. A sucessão, portanto, já não é hipótese, mas uma necessidade concreta para a sobrevivência da direita nas próximas décadas.