União dos Palmares

1 ano, 20 mortes e 10 perguntas: O que ninguém explicou sobre a tragédia da Serra da Barriga

Acidente com ônibus escolar deixou 20 mortos em novembro de 2024; laudos afastam falha mecânica, mas dúvidas sobre responsabilidade e reparação permanecem.

Atualizado 2 meses atrás
Local exato do acidente na Serra da Barriga: trecho da ladeira onde o ônibus escolar caiu na ribanceira em União dos Palmares
Registro do local do acidente na ladeira da Serra da Barriga; marcas na vegetação e traçado da via ainda relembram a tragédia de 2024. (Foto: Reprodução)

UNIÃO DOS PALMARES (AL) — Um ano depois do acidente de 24 de novembro de 2024, na subida da Serra da Barriga, parte essencial da história ainda não foi esclarecida de forma ampla para a população de União dos Palmares.

Naquele dia, um ônibus escolar cedido pela Prefeitura levava 48 pessoas para o evento “Pôr do Sol na Serra” quando caiu em uma ribanceira, deixando 20 mortos e ao menos 28 feridos.

Em julho de 2025, um laudo da Polícia Científica descartou falha mecânica nos sistemas de freio, transmissão, pneus e suspensão do veículo. Na mesma data, a Polícia Civil anunciou que não iria indiciar ninguém, atribuindo a causa provável a erro de condução do motorista — que morreu na tragédia — e encerrando o inquérito.

O próprio inquérito, porém, registra que o ônibus tinha capacidade para 37 passageiros, mas saiu com 48 pessoas a bordo e já havia ultrapassado o limite de idade para circular como escolar, previsto em norma do Detran/AL.

Ao longo de 2025, o caso também foi discutido em audiência pública do Ministério Público (MPAL), quando famílias relataram assistência insuficiente e ausência de acordos de indenização.

Mesmo com laudos e notas oficiais, pontos-chave seguem sem resposta clara. Um ano depois, o BR104 lista 10 perguntas que continuam em aberto:

1. Quem autorizou o uso daquele ônibus específico?

O inquérito aponta que o veículo estava acima da lotação e fora da idade permitida. Quem, nominalmente, decidiu colocar esse ônibus na estrada para um passeio recreativo, mesmo com essas limitações? Houve processo administrativo para apurar essa escolha e aplicar sanções a servidores ou gestores envolvidos?

2. As inspeções estavam em dia?

Logo após a tragédia, o MPAL solicitou documentos sobre as condições do veículo. Os relatórios de vistoria e revisões previstos no Código de Trânsito confirmam que o ônibus estava regular no momento da viagem? Se houve falhas na fiscalização da frota, quem foi responsabilizado?

3. A integridade do ônibus foi preservada na ribanceira?

O coletivo ficou mais de meio ano no local do acidente, em área de difícil acesso, até a remoção. Familiares levantaram dúvidas sobre possível retirada de peças — o que foi negado pela perícia. Existe um registro completo de quem teve acesso à área? Há relatório detalhado de cadeia de custódia do veículo até a chegada ao pátio da Polícia Civil?

4. Por que a tese de “falha mecânica” mudou?

Nos primeiros meses, informações atribuídas à investigação falavam em provável falha mecânica. O laudo técnico posterior afastou essa hipótese e sustentou que os sistemas funcionavam. A Polícia Civil apresentou, em linguagem acessível, os motivos técnicos dessa mudança de entendimento à sociedade ou isso ficou restrito a falas pontuais?

5. O que aconteceu nos segundos finais?

Relatos indicam que o ônibus subiu, perdeu força e desceu de ré. O delegado falou em “imperícia ou imprudência”, mas não há uma reconstituição pública da manobra. Existe relatório técnico descrevendo a marcha utilizada, uso de freio e procedimentos que poderiam ter evitado a queda?

6. Havia plano de risco para o evento?

O passeio integrava a programação do Mês da Consciência Negra. Não há divulgação ampla de um plano operacional detalhando limite de passageiros, escolha da frota ou presença de ambulância. Quem assinou o planejamento de transporte e segurança para aquele dia?

7. As obras na estrada foram auditadas?

Governo e Prefeitura anunciaram intervenções na via. Falta, porém, um dossiê consolidado mostrando o que foi efetivamente entregue. Quais medidas estão implantadas hoje (barreiras, proteção lateral, pontos de escape) e existe avaliação técnica externa atestando que a estrada está segura para grandes eventos?

8. Como estão as indenizações?

Em audiência pública de junho de 2025, o MPAL informou que não houve acordo administrativo e que as negociações seguiram na Justiça. Quantas famílias já tiveram indenização fixada ou paga? Quantas ações ainda aguardam decisão, deixando sobreviventes sem reparação financeira até agora?

9. O apoio psicológico foi mantido?

Relatos de familiares dão conta de sequelas emocionais e despesas com medicamentos. Falta um relatório público que mostre quantas pessoas continuam recebendo atendimento estruturado da rede de saúde e assistência social um ano depois.

10. Existe responsabilização administrativa?

Na esfera criminal, o inquérito não indiciou ninguém vivo. Mas e na área administrativa e civil? Quais procedimentos estão em curso contra gestores ou servidores ligados à organização do evento? Há alguma punição efetiva — multa ou perda de função — aplicada até agora?

Um ano depois, essas perguntas ajudam a medir até que ponto a tragédia da Serra da Barriga produziu mudanças estruturais ou permanece restrita à dor das famílias.

Onde cobrar respostas e direitos

  • Ministério Público (MPAL): Fiscaliza o andamento das investigações e acordos.
  • Defensoria Pública: Oferece advogados gratuitos para famílias de baixa renda buscarem indenização.
  • Ouvidorias: Canais do Governo do Estado e da Prefeitura para reclamações oficiais.
  • Tribunal de Justiça (TJ-AL): Para consulta de andamento processual das ações cíveis.

O BR104 mantém o espaço aberto para respostas de todos os órgãos citados. Erros? Fale com a redação: contato@br104.com.br.