Segurança

Entre o risco e a proteção: os bastidores da atuação antibombas em Alagoas

Com ações de alto risco, esquadrão antibombas da PM-AL atua com precisão para preservar vidas e vestígios.

Atualizado 9 meses atrás
Militares do Bope preparam agente para simulação com traje antibombas em Alagoas @ Igor Lessa e arquivo PM-AL
Militares do Bope preparam agente para simulação com traje antibombas em Alagoas @ Igor Lessa e arquivo PM-AL

Na manhã de 13 de setembro de 2022, o Aeroporto Zumbi dos Palmares, em Rio Largo (AL), precisou ser evacuado às pressas. Um pacote suspeito encontrado junto aos guichês gerou uma ameaça de bomba, interrompendo voos e causando apreensão entre funcionários e passageiros. O Esquadrão Antibombas do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar foi acionado de imediato. Após avaliação minuciosa, o risco foi descartado, mas o protocolo rigoroso seguiu até a normalização da situação.

A ocorrência foi um alerta sobre o potencial destrutivo desses artefatos, especialmente em locais com alta circulação de pessoas. Naquele ano, segundo dados da Setur, cerca de 50 mil passageiros passaram pelo terminal, o que dimensiona os riscos envolvidos caso a ameaça fosse real.

Especialização e Doutrina: a atuação técnica do Bope

Bombas são artefatos projetados para provocar danos – seja por explosão, incêndio ou substâncias perigosas. Já a ameaça de bomba pode ser tanto uma suspeita infundada quanto uma situação real. Em ambos os casos, o protocolo é o mesmo: os especialistas do Bope assumem a linha de frente. O processo segue quatro fases essenciais: coleta e análise de dados, decisão de evacuação e busca.

O sargento Wagner Francelino, com 19 anos de atuação na corporação – sendo 11 deles como explosivista – lidera esse trabalho. Além de atuar em campo, Francelino é instrutor em cursos no estado e em outras regiões do país. Ele explica a diferença entre ações antibomba (preventivas ou imediatas) e contrabomba (repressivas, após atentados). Enquanto a primeira visa proteger pessoas e instalações, a segunda exige habilidades técnicas mais complexas, como desativação de dispositivos e perícias especializadas.

 

Ocorrências que marcaram

Entre os casos mais relevantes da PM-AL, destacam-se:

Estádio Rei Pelé (jan/2025): três ocorrências envolvendo explosivos durante o jogo entre CSA e Náutico. Um artefato foi encontrado em carro de integrante de torcida organizada; outro foi lançado contra a cavalaria da PM; e o terceiro localizado no porta-luvas de um veículo estacionado nas imediações.

Centro de Maceió (nov/2022): um catador teve a mão amputada após o manuseio de uma bomba artesanal encontrada no lixo.

Hospital Geral do Estado (nov/2022): três pessoas feridas após a explosão de um artefato caseiro em um canteiro de plantas.

Agência bancária (nov/2022): após denúncia de objeto suspeito, a área foi isolada; tratava-se de um pote com alimentos, esquecido por engano por uma família.

Traipu (mai/2024): apoio à Polícia Ambiental na desativação de uma fábrica clandestina de fogos de artifício. Foram apreendidos 46 kg de pólvora.

Explosão residencial (nov/2024): um botijão de gás causou o desabamento de um prédio no Conjunto Maceió I, matando três pessoas. O Bope atuou na varredura do local para garantir a segurança de peritos e bombeiros.

 

Equipamentos de ponta e trabalho em equipe

Desde 2024, o esquadrão antibombas da PM-AL utiliza o traje EOD 10, da Med-Eng, referência mundial em proteção contra explosivos. Com mais de 45 kg, o traje oferece proteção integral contra fragmentos, calor, impacto e substâncias químicas. O cabo Galba Verçosa explica que vestir o equipamento exige o apoio de outros dois militares. Apesar do peso e da limitação de mobilidade, o traje é vital para a segurança do operador.

A doutrina estabelece uma formação mínima de três profissionais por missão: explosivista principal, secundário e auxiliar. Apenas um se aproxima do artefato, enquanto os demais oferecem apoio remoto e segurança do perímetro.

Reconhecimento internacional e integração com a Polícia Científica

Alagoas tem se tornado referência nacional e internacional em ações com explosivos e preservação de vestígios. Desde 2014, a parceria entre o Bope e a Polícia Científica tem rendido frutos importantes. O perito Gerard Deokaran, técnico explosivista e instrutor no Bope, foi um dos responsáveis por essa aproximação.

Esse trabalho conjunto permite que as equipes atuem seguindo padrões internacionais de preservação da cadeia de custódia. DNA de contato, impressões digitais e fragmentos dos dispositivos são coletados com rigor científico, fortalecendo investigações e inquéritos.

O reconhecimento do trabalho chegou aos maiores eventos da área: Alagoas tem sido convidada a representar a América Latina na Associação Internacional de Técnicos e Investigadores de Explosivos (IABTI), além de participar com destaque no Congresso Nacional de Criminalística (CNC) e na Interforensics.

O fator humano

Por trás da tecnologia, do preparo técnico e dos trajes robustos, há profissionais que encaram o perigo com coragem. O cabo Verçosa compartilha a tensão desses momentos: “Mesmo com adrenalina alta, temos confiança na nossa formação e no equipamento. A técnica prevalece”.

O sargento Francelino alerta a população: “Se encontrar um objeto suspeito, lembre-se dos três nãos: não tocar, não mexer, não remover”. A orientação é clara: acione o 190, isole a área, mantenha distância e aguarde os profissionais especializados.

*Com Agência Alagoas