Saúde

Tudo sobre o vírus de Marburg: o que é, sintomas e riscos

Primeiro surto de Marburg na Etiópia acende alerta global. Entenda como o vírus se transmite, quais são os sintomas e o que já se sabe.

Imagem simbolizando virus de Marburg - @Reprodução
Imagem simbolizando virus de Marburg - @Reprodução

O primeiro surto de vírus de Marburg na Etiópia colocou de novo no mapa uma das doenças mais temidas do mundo. O país africano confirmou nove casos da infecção hemorrágica e, até agora, três mortes, segundo o Ministério da Saúde local com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O foco do surto fica na Região Sul da Etiópia, na área de Jinka, perto da fronteira com o Sudão do Sul. As autoridades isolaram casos, monitoram contatos e reforçaram campanhas de informação. A OMS e o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (África CDC) enviaram equipes e insumos para ajudar no controle da doença.

Mesmo distante da realidade brasileira, o vírus de Marburg desperta dúvidas sempre que aparece em alguma manchete internacional. Afinal, o que é esse vírus, quais são os sintomas, há risco para o Brasil, existe vacina e quais cuidados são recomendados em viagens?

A seguir, o BR104 reúne respostas para as principais perguntas sobre o vírus de Marburg, com base em documentos oficiais de organismos internacionais, artigos científicos recentes e em especialistas que acompanham os surtos mais recentes na África.

O que é o vírus de Marburg e onde surgiu

O vírus de Marburg é um filovírus, da mesma família do Ebola, capaz de causar uma febre hemorrágica grave, com alta taxa de mortalidade. A OMS classifica a doença pelo vírus de Marburg como uma infecção muitas vezes fatal, com letalidade que pode variar de 24% a 88%, dependendo do surto e da estrutura de saúde disponível.

O vírus foi identificado pela primeira vez em 1967, em um surto entre trabalhadores de laboratório nas cidades de Marburg e Frankfurt, na Alemanha, e em Belgrado, então na Iugoslávia. Eles lidavam com macacos trazidos de Uganda para pesquisas. É por causa desse episódio que a doença recebeu o nome da cidade alemã de Marburg, e não porque a cidade seja um foco atual da infecção.

Hoje, a origem natural do vírus é atribuída a morcegos frugívoros da espécie Rousettus aegyptiacus, conhecidos como morcegos-da-fruta egípcios. Esses animais podem abrigar o vírus sem adoecer, atuando como reservatório. O contato em cavernas, minas ou abrigos onde essa espécie vive é apontado como porta de entrada para casos humanos esporádicos.

Depois do primeiro registro na Alemanha, novos surtos foram descritos principalmente na África. Houve episódios em Angola, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Gana, África do Sul, Tanzânia, Guiné Equatorial e, mais recentemente, Ruanda e Etiópia.

Em 2024, Ruanda enfrentou seu primeiro surto de Marburg, com dezenas de casos e mortes, mas conseguiu conter a transmissão com uma resposta rápida, que incluiu isolamento de pacientes, rastreamento intenso de contatos e, pela primeira vez, o uso de uma vacina experimental em estudo clínico de fase 2.

No caso da Etiópia, o surto atual é o primeiro do país. Segundo a OMS, nove casos foram confirmados na região sul, e as autoridades locais ampliaram triagem em comunidades, isolaram casos e passaram a monitorar contatos próximos para reduzir o risco de expansão para outros estados e países vizinhos.

Especialistas veem o episódio como mais um alerta sobre a necessidade de vigilância contínua. Em nota sobre o surto etíope, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou a transparência e a rapidez da resposta do país e destacou que “ações precoces são decisivas para evitar uma tragédia maior”, reforçando a importância de detectar e isolar casos logo no início dos sintomas.

Já o diretor do África CDC, Jean Kaseya, lembrou que o problema não se limita a um único país. Ele afirmou que surtos como o de Marburg colocam em risco toda a região, especialmente nações com sistemas de saúde fragilizados, e pediu que os vizinhos reforcem estratégias de prevenção e preparação para emergências de saúde.

No Brasil, não há registro de casos de Marburg, nem suspeitas em investigação, de acordo com especialistas em doenças tropicais e documentos técnicos recentes. A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical tem defendido, porém, a necessidade de manter sistemas de vigilância prontos para reconhecer rapidamente quadros de febre hemorrágica em viajantes que retornam de áreas afetadas.

Idosa tomando vacina contra o vírus Marburg - @Imagem ilustrativa: @Reprodução

Idosa tomando vacina contra o vírus Marburg – @Imagem ilustrativa: @Reprodução

Sintomas, transmissão, mortalidade e prevenção

A doença pelo vírus de Marburg começa, em geral, como um quadro de febre alta, dor de cabeça intensa e dores musculares, semelhante a uma gripe forte. De acordo com a OMS, o período de incubação varia de 2 a 21 dias, tempo em que a pessoa está infectada, mas ainda sem sinais clínicos.

Após o início da febre, muitos pacientes evoluem para náuseas, vômitos, diarreia intensa e dor abdominal. A perda rápida de líquidos leva à desidratação e pode causar queda importante na pressão arterial. Em surtos anteriores, médicos descrevem pessoas extremamente prostradas, com dificuldade até para ficar sentadas ou em pé.

A fase seguinte costuma envolver manifestações hemorrágicas em parte dos pacientes. Podem ocorrer sangramentos em gengivas, nariz, aparelho digestivo e em áreas de punção venosa. Em muitos casos graves, há também comprometimento de fígado, rins e sistema nervoso central, com confusão mental e até coma.

A transmissão do vírus acontece por duas vias principais. A primeira é o contato com o reservatório animal ou com animais infectados, como morcegos-da-fruta ou, em alguns episódios, primatas. Pessoas que frequentam cavernas ocupadas por esses morcegos, sem proteção, ou lidam com animais doentes correm mais risco.

A segunda via, responsável pela maioria dos casos em surtos, é a transmissão de pessoa para pessoa. O vírus passa por meio de contato direto com sangue, vômito, fezes, suor, saliva ou esperma de pessoas infectadas, vivas ou falecidas, e por objetos contaminados, como roupas de cama, agulhas, luvas e superfícies hospitalares.

Em nota sobre o surto etíope, a OMS reforça que não há evidência de que o Marburg se espalhe com facilidade pelo ar em situações comunitárias, como acontece com vírus respiratórios, a exemplo da gripe ou da Covid-19. O risco maior está no contato próximo e desprotegido com fluidos e secreções de doentes.

A taxa de mortalidade varia bastante entre surtos. Em Angola, em 2004–2005, estudos relatam letalidade próxima de 88%. Já em Ruanda, em 2024, com atendimento hospitalar estruturado e resposta rápida, um artigo científico publicado no New England Journal of Medicine descreve 66 casos e 15 mortes, o que representa uma letalidade menor, ainda que alta.

No surto atual da Etiópia, o Ministério da Saúde informou três mortes entre nove casos confirmados até o momento, além de outras mortes em investigação. Mais de cem contatos estão sob monitoramento, segundo relatórios recentes da África CDC e da imprensa internacional especializada em saúde.

Não existe, até agora, um remédio específico aprovado para tratar o vírus de Marburg. O que salva vidas hoje é o chamado suporte clínico: hidratação por via oral ou venosa, reposição de eletrólitos, controle de pressão arterial, transfusões de sangue e plaquetas, tratamento de complicações e, quando necessário, suporte em UTI, com oxigênio, ventilação mecânica e diálise.

Ao mesmo tempo, há uma corrida científica em andamento. Durante o surto de Ruanda, em 2024, o país se tornou o primeiro a testar em campo uma vacina experimental contra Marburg, desenvolvida pelo Sabin Vaccine Institute. A instituição enviou cerca de 700 doses para vacinar profissionais de saúde e outros grupos de risco em um estudo de fase 2.

Idosa esperando por vacina contra o vírus Marburg - @Imagem ilustrativa: @Repropdução

Idosa esperando por vacina contra o vírus Marburg – @Imagem ilustrativa: @Repropdução

Essa vacina, conhecida como cAd3-Marburg, usa um adenovírus de chimpanzé modificado para apresentar ao organismo a proteína de superfície do vírus de Marburg e estimular a resposta imune. Dados de fase 1 mostraram que o imunizante é seguro e gera anticorpos em humanos, e os estudos de fase 2 seguem em andamento em países africanos, segundo artigos científicos publicados em 2025.

Além da vacina, pesquisadores testam antivirais e anticorpos monoclonais. Trabalhos recentes em animais e modelos laboratoriais investigam moléculas como remdesivir e obeldesivir, além de combinações de anticorpos produzidos em laboratório que podem neutralizar o vírus. Por enquanto, porém, nenhum desses produtos está aprovado para uso amplo na população.

Para viajantes brasileiros, a principal forma de prevenção é evitar situações de risco em áreas onde há surto. Isso inclui não entrar em cavernas com colônias de morcegos, não manipular animais doentes ou mortos, não consumir carne de caça de origem desconhecida e evitar contato próximo com pessoas doentes com quadros de febre hemorrágica.

Em ambiente hospitalar, a recomendação é usar equipamentos de proteção individual adequados — luvas, máscaras, aventais e óculos — e seguir protocolos rígidos de higiene, descarte de materiais e limpeza de ambientes. Em funerais, não é indicado tocar o corpo de vítimas sem orientação das equipes de saúde.

Mesmo sem casos no Brasil, infectologistas ouvidos em notas técnicas e análises acadêmicas apontam que surtos como o de Ruanda e da Etiópia servem de alerta. Para eles, a combinação de viagens internacionais mais frequentes e mudanças ambientais aumenta a chance de agentes antes restritos a certas regiões chegarem a novos continentes, o que torna essencial manter laboratórios preparados e equipes treinadas para reconhecer rapidamente sinais de febres hemorrágicas.

Na prática, para quem mora em Alagoas ou em qualquer outro estado brasileiro, o risco imediato de contrair o vírus de Marburg é considerado muito baixo. Mas entender o que é a doença, como ela se espalha e quais avanços existem em vacinas e tratamentos ajuda a separar informação confiável de boatos e a acompanhar, com senso crítico, as notícias que surgem sempre que um novo surto é detectado em outro continente.