O conclave de outubro de 1978, que elegeu o Papa João Paulo II, poderia ter marcado a história da Igreja Católica com um nome brasileiro no trono de Pedro. Segundo relatos confirmados por autoridades eclesiásticas e publicações históricas, o cardeal Dom Aloísio Lorscheider, então arcebispo de Fortaleza (CE), foi o primeiro a alcançar os dois terços necessários dos votos para ser eleito papa. Contudo, ele recusou a nomeação, citando problemas de saúde.
Dom Aloísio foi um dos mais influentes nomes da Igreja Católica na América Latina durante o século XX. Nascido em Estrela (RS), o cardeal havia sido nomeado por Paulo VI em 1976, após atuação destacada como presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
No conclave que sucedeu à morte repentina de João Paulo I, cujo papado durou apenas 33 dias, Lorscheider obteve apoio expressivo de seus pares. De acordo com o jornalista Tad Szulc, em seu livro “Papa João Paulo II – A Biografia”, o brasileiro teria sido consultado diretamente sobre a possibilidade de assumir o cargo. Ele, no entanto, recusou, justificando que havia passado por uma cirurgia cardíaca e tinha oito pontes de safena.
A recusa surpreendeu o colégio de cardeais, que se encontrava num impasse. Lorscheider, com forte influência entre os latino-americanos e africanos, passou então a articular a candidatura de Karol Wojtyła, cardeal de Cracóvia, que viria a ser eleito como João Paulo II. O próprio Frei Betto, escritor e teólogo brasileiro, relembrou o episódio em artigo recente publicado em seu site.
O gesto de recusar o papado é considerado raro e demonstra o peso de consciência pastoral e pessoal de Lorscheider. Segundo fontes próximas ao cardeal, ele temia que outro papado curto, como o de João Paulo I, pudesse gerar nova instabilidade à Igreja. Ele preferiu, assim, contribuir de outra forma.
Dom Aloísio Lorscheider continuou sua trajetória como arcebispo de Aparecida (SP), cargo que assumiu posteriormente, e seguiu sendo um nome de referência na defesa dos direitos humanos e da justiça social. Faleceu em 2007, aos 83 anos, em Porto Alegre, por falência múltipla dos órgãos.
A possibilidade de um papa brasileiro ainda é discutida nas rodas eclesiásticas e na imprensa internacional. Em 2025, o nome de Dom Sérgio da Rocha, cardeal de Salvador (BA), surgiu entre os favoritos segundo o jornal francês Libération, embora a própria Igreja brasileira trate o tema com discrição.
O episódio envolvendo Dom Aloísio segue como um dos momentos mais emblemáticos da história da Igreja Católica no Brasil e reforça a relevância da presença brasileira no cenário religioso mundial.
