Política

Tarifas, sanções e diplomacia: o que ficou do primeiro encontro entre Lula e Trump

Em conversa de cerca de 50 minutos em Kuala Lumpur, líderes afirmam que equipes iniciarão tratativas imediatas sobre tarifas e sanções

Encontro entre Donald Trump e o presidente Lula - @Reprodução
Encontro entre Donald Trump e o presidente Lula - @Reprodução

A primeira reunião presencial agendada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorreu na tarde deste domingo (26), em Kuala Lumpur, na Malásia, à margem da 47ª cúpula da ASEAN.

O encontro, que durou cerca de 45 a 50 minutos, foi descrito pelas duas partes como “positivo” e abriu uma frente de negociação para tentar reverter o tarifaço de 50% imposto por Washington a produtos brasileiros desde agosto. Segundo o chanceler Mauro Vieira, a orientação de ambos é que as equipes técnicas iniciem as conversas “imediatamente”, com a expectativa de um cronograma acelerado.

A reunião começou com uma breve fala à imprensa. Trump disse ver “chance de alguns bons acordos”, indicando que discutiria tarifas e que o objetivo é chegar rapidamente a um entendimento comercial com o Brasil.

Lula respondeu que “não há razão para desavenças” entre os dois países e que levara uma pauta ampla, sem temas vetados, para tentar destravar a relação — que vinha tensionada desde a decisão da Casa Branca de elevar tarifas a 50% e adotar sanções a autoridades brasileiras.

Donald Trump e Lula - Foto: Evelyn Hockstein/Reuters

Donald Trump e Lula – Foto: Evelyn Hockstein/Reuters

Após o encontro, a diplomacia brasileira relatou que Trump determinou a sua equipe o início de uma negociação bilateral, enquanto o governo brasileiro insiste para que a sobretaxa seja suspensa durante as tratativas.

Nos bastidores, auxiliares de Lula afirmam que o Planalto considera “equívoco” a justificativa americana para o endurecimento das tarifas e sustenta que a balança entre Brasil e Estados Unidos não indicaria prejuízo norte-americano capaz de sustentar a medida.

A sinalização pública da Casa Branca é que as conversas avancem “com rapidez”, mas sem prazo formal anunciado. O clima político do encontro, porém, foi um ponto fora da curva recente: ao deixar a sala, interlocutores classificaram a conversa como pragmática, focada em comércio e em abrir portas para visitas de alto nível nos dois sentidos — o próprio chanceler disse que Trump manifestou interesse em vir ao Brasil, e que Lula aceitaria uma visita futura a Washington.

Um tema sensível, o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), apareceu antes da reunião, quando Trump foi questionado por jornalistas e afirmou “gostar” de Bolsonaro e “se sentir mal” pelo que ele enfrentou no Brasil.

Em seguida, o presidente norte-americano acrescentou que o assunto não entraria na pauta da conversa com Lula, e, de fato, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o tema não foi tratado na mesa. O eixo da reunião permaneceu nas tarifas e nas sanções, com o governo brasileiro reforçando o pedido para que as medidas contra autoridades sejam revistas no curso do diálogo.

A leitura de Brasília é que a conversa em Kuala Lumpur abre uma janela para discutir setores mais afetados — como carnes — e calibrar concessões cruzadas que permitam um recuo gradual do tarifaço. Ao mesmo tempo, a diplomacia brasileira tenta reposicionar a agenda bilateral para além das tarifas, recolocando cooperação econômica, energia e até temas regionais, como Venezuela, num roteiro possível, se houver espaço político.

Nos últimos dias, o próprio Lula já havia indicado que não veria “assuntos proibidos” numa conversa com Trump, e que aceitaria discutir pontos sensíveis desde que isso contribuísse para um relacionamento “mais civilizado possível” entre os países.

Em agosto, os Estados Unidos elevaram tarifas sobre importações brasileiras de 10% para 50%, atrelando a decisão a tensões políticas internas do Brasil e a embates regulatórios. A medida teve impacto imediato em cadeias como a de proteínas, com reflexos de preço no mercado americano e redirecionamento de parte das exportações brasileiras para terceiros países.

O governo Lula rebateu a motivação, pediu revisão e manteve a pressão por negociações, que agora, com o gesto político em Kuala Lumpur, passaram a ter um trilho formal.