O fim do tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros não mexe só com gráficos de exportação. Ele atinge em cheio um dos pilares recentes do discurso bolsonarista: a ideia de que Lula teria jogado o país na fogueira por “ideologia”, punindo o agro e rompendo com o governo Trump.
Enquanto a sobretaxa de até 50% esteve em vigor, a narrativa era perfeita. Havia um vilão externo, um governo “de esquerda” para culpar e um setor ideal para mobilizar politicamente: o agronegócio. Bastava apontar para o café, a carne, o suco encarecidos e repetir que, com Bolsonaro, “Trump respeitava o Brasil”.
Com o recuo de Trump, esse roteiro desmancha no ar. Lula passa a ter um fato incômodo para os adversários: sob seu governo, e em meio a uma relação tensa com o republicano, o Brasil recupera acesso ao mercado americano em setores-chave. Não é afinidade ideológica, é resultado concreto de negociação.
Isso fere o monopólio simbólico que Bolsonaro reivindicava sobre dois ativos: Trump e o agro. Durante meses, o tarifaço foi vendido como prova de que o ex-presidente continuava no centro do jogo, a ponto de motivar retaliação de Washington em defesa de sua biografia. Agora, a mesma Casa Branca assina o recuo depois de conversar com o governo que o bolsonarismo acusa de “antiamericano”.
A reação previsível será tentar redesenhar a história. Dirão que Trump recuou por pressão interna, que Lula “cedeu demais”, que há acordos obscuros. Mas, para além da base já convertida, o fato bruto é outro: a conta pesada que vinha sendo mostrada como efeito direto da política externa atual simplesmente deixa de existir.
Também cai por terra, ainda que parcialmente, o mantra de que Lula “isolou o Brasil”. Isolamento é difícil de sustentar quando o maior conflito comercial recente com os EUA termina com a retirada das tarifas e alívio para o agronegócio. O discurso segue sendo repetido, mas agora precisa brigar com um resultado palpável.
Movimentos políticos que vivem de crise permanente precisam de exemplos vivos para alimentar o clima de emergência. O tarifaço era um prato pronto: prejuízo, dólar, emprego, tudo no mesmo pacote. Ao ser desmontado, não derruba o bolsonarismo, mas joga água fria em uma de suas narrativas mais rentáveis.
