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Anjo ou demônio? Por que internet defende a médica mesmo com mãe e irmão contra

Mãe e irmão de Nádia Tamyres afirmam que Alan Carlos era inocente, laudos e polícia descartam legítima defesa, mas parte do público continua defendendo a médica.

Nádia Tamyres Silva Lima - @Reprodução
Nádia Tamyres Silva Lima - @Reprodução

O caso da médica Nádia Tamyres, presa suspeita de matar o ex-marido, o médico Alan Carlos de Lima Cavalcante, ganhou um novo capítulo com forte impacto emocional e jurídico. Nos últimos dias, mãe e irmão da acusada decidiram falar publicamente e passaram a contestar a versão dela, afirmando que o homem morto em frente a uma Unidade Básica de Saúde, em Arapiraca, era inocente.

Ao mesmo tempo, laudos periciais e a Polícia Civil de Alagoas reforçam que não houve legítima defesa no momento dos disparos. Ainda assim, parte da sociedade segue manifestando apoio à médica nas redes sociais, enxergando nela uma mulher em contexto de violência doméstica que teria reagido sob extremo desespero.

O que dizem mãe, irmão e os laudos oficiais

Em vídeo que passou a circular em perfis de notícias e em aplicativos de mensagens, a mãe de Nádia Tamyres rompeu o silêncio e defendeu o ex-genro Alan Carlos. Chorando, ela declarou que “quem morreu foi um inocente” e afirmou que a neta, filha do casal, “nunca foi abusada”, dizendo ainda que existem “vários laudos médicos mostrando a inocência de Alan Carlos”.

A mãe também aponta que o caso seria resultado de um “conjunto de mentiras entre poderes e ambição”, negando a versão de abuso sexual que vinha sendo apresentada pela própria filha desde antes do crime. Em outro trecho, faz um apelo direto à opinião pública e às famílias que acompanham o caso, dizendo que só estaria gravando o vídeo porque acredita na inocência do ex-genro.

O irmão de Nádia, Emerson Lima Barros, também procurou a imprensa para contestar a médica. Em entrevista, ele afirmou que “ela matou um inocente” e relatou que, com o tempo, a família passou a perceber contradições na versão da irmã. Segundo ele, os laudos anexados a processos anteriores teriam afastado a tese de abuso sexual contra a filha do casal, o que levou a família a deixar de apoiar a narrativa da médica.

Do lado técnico, laudos da Polícia Científica de Alagoas indicam que o carro de Alan Carlos foi atingido por pelo menos oito disparos de arma de fogo, mas o médico morreu em razão de um único tiro que atingiu a região torácica, alcançando órgãos vitais.

A Polícia Civil, por sua vez, já concluiu que não houve legítima defesa. De acordo com o delegado responsável pelo inquérito, imagens de câmeras de segurança mostram a médica descendo do carro já armada, apontando a arma na direção do ex-marido e efetuando vários disparos, sem que se identifique uma ameaça iminente por parte dele. A suspeita, porém, sustenta em depoimento que reagiu para se proteger e proteger a filha, em um contexto de suposta perseguição e violência doméstica.

Em relação às acusações de estupro de vulnerável contra Alan, veículos locais relatam que ao menos um laudo médico anexado aos autos teria descartado sinais compatíveis com conjunção carnal na criança. A mãe e o irmão de Nádia citam esses documentos como prova de que a denúncia de abuso não se sustentou. Os processos correm sob segredo de Justiça, e o conteúdo completo das perícias não é público.

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Por que parte do público continua defendendo a médica?

Apesar das falas da mãe e do irmão, e do posicionamento oficial da Polícia Civil, Nádia Tamyres segue recebendo manifestações de apoio nas redes sociais. Comentários em perfis de notícias e vídeos sobre o caso mostram internautas descrevendo a médica como uma mulher que teria sofrido violência durante anos e que “reagiu para sobreviver”, ainda que as investigações apontem outro cenário para a dinâmica do crime.

Especialistas em psicologia social e violência de gênero ouvidos em estudos recentes explicam que esse tipo de reação não é raro. Em uma sociedade marcada por histórico de descrédito em relação às denúncias de mulheres, parte do público tende a se apegar à narrativa de que a acusada seria, antes de tudo, vítima. Essa identificação é reforçada por campanhas que incentivam a “acreditar na palavra da mulher”, necessárias para enfrentar a violência, mas que podem, em alguns casos, levar a leituras simplificadas de situações complexas.

Pesquisas sobre redes de apoio a mulheres em situação de violência mostram que grupos em torno de uma vítima — seja presencialmente, seja nas redes sociais — podem tanto oferecer acolhimento quanto reforçar versões que não foram totalmente esclarecidas pela Justiça. Nesses ambientes, ganha força a ideia de que qualquer questionamento à narrativa inicial representaria falta de empatia ou revitimização.

Psicólogos também apontam a influência de processos como o viés de confirmação: muitas pessoas escolhem, de forma inconsciente, apenas os elementos que confirmam aquilo em que já acreditam. No caso de Nádia, quem enxerga nela uma mãe que tentou proteger a filha tende a relativizar o conteúdo dos laudos e das falas da própria família, enquanto quem se sensibiliza com a morte de Alan se apega às evidências técnicas e às declarações recentes da mãe e do irmão.

Além disso, o ambiente altamente polarizado das redes sociais incentiva a formação de “torcidas” em torno de casos de grande repercussão. Em vez de acompanhar a investigação com cautela, parte do público se posiciona rapidamente, com base em recortes de vídeos, prints de conversas e relatos incompletos. Nessa lógica, a figura da médica — mulher, mãe e profissional de saúde — acaba sendo adotada por alguns grupos como símbolo de resistência contra a violência, mesmo quando familiares, autoridades e laudos indicam outra direção.

Enquanto o inquérito segue em andamento e novas peças são acrescentadas ao processo, o caso expõe, ao mesmo tempo, uma família dividida, uma investigação que se fortalece em provas técnicas e uma opinião pública fragmentada, entre quem enxerga Nádia como acusada de um homicídio qualificado e quem insiste em vê-la sobretudo como vítima.