Em junho de 2020, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou publicamente que pessoas que vandalizassem ou destruíssem monumentos, estátuas ou propriedades federais deveriam ser presas por até 10 anos, sem exceções.
A fala ocorreu no auge dos protestos contra o racismo e a violência policial, após a morte de George Floyd. Manifestantes derrubaram ou tentaram derrubar estátuas de figuras históricas, como a do ex-presidente Andrew Jackson, em frente à Casa Branca.
Trump usou as redes sociais para anunciar que havia autorizado a aplicação plena do Veterans’ Memorial Preservation Act, lei federal que já previa a pena máxima de 10 anos para quem danificasse ou destruísse monumentos protegidos. Em 26 de junho daquele ano, ele assinou uma ordem executiva que reforçava a determinação, prevendo também a redução de apoio federal a cidades que não protegessem seus monumentos.
“Não haverá exceções”, afirmou Trump à época, defendendo a medida como forma de “proteger a história e a cultura americana” diante do que chamou de “movimento radical de esquerda”.
Postura atual sobre o Brasil e o 8 de janeiro
Quase quatro anos depois, o discurso de Donald Trump mostra um contraste. Em declarações recentes, ele se manifestou a favor da anistia a brasileiros presos por participação nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Entre os crimes praticados naquele dia, registrados em imagens e documentos oficiais, está a destruição de obras de arte, patrimônio histórico e mobiliário dos prédios do Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. A ação, segundo o governo brasileiro, causou prejuízos milionários e afetou bens tombados pelo patrimônio histórico.
Trump, que mantém relação próxima com políticos alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmou que considera as penas e prisões “excessivas” e que essas pessoas deveriam ser perdoadas. Para ele, o contexto político e a insatisfação popular justificariam a medida.
A defesa da anistia, entretanto, contrasta diretamente com sua postura rígida de 2020, quando pediu a aplicação máxima da lei contra manifestantes que vandalizassem monumentos nos EUA — ainda que os alvos não fossem prédios ou símbolos políticos em funcionamento, mas estátuas e memoriais.
Contradição política e impacto internacional
O contraste entre as duas posições chama atenção não apenas no Brasil, mas também na imprensa internacional. Analistas apontam que, enquanto presidente, Trump adotou um discurso de “tolerância zero” para atos de vandalismo e depredação, defendendo penas severas como instrumento de dissuasão.
Já fora da Casa Branca, e no contexto brasileiro, seu posicionamento reflete alinhamentos políticos e ideológicos, priorizando a defesa de grupos que compartilham de sua base eleitoral. Essa mudança evidencia como líderes políticos podem ajustar suas narrativas conforme o cenário e os interesses envolvidos.
Especialistas em direito internacional e diplomacia observam que declarações como essa podem ser interpretadas como interferência em questões internas de outros países, sobretudo quando envolvem processos judiciais em andamento e crimes contra o patrimônio público.
