Eles surgem dançando com um caixão nos ombros, óculos escuros, passos sincronizados e sorriso no rosto, poucos segundos antes de uma “tragédia” nos vídeos de internet. No Brasil, ficaram conhecidos simplesmente como “meme do caixão”. No mundo, são os Dancing Pallbearers, carregadores profissionais de Gana que transformaram o próprio trabalho em um fenômeno cultural global.
Ao contrário de boatos que circulam de tempos em tempos, o grupo não desapareceu, não “faliu” e tampouco foi destruído pelo meme. Eles profissionalizaram a imagem, fecharam contratos publicitários, venderam um NFT por valor milionário e seguem atuando no setor funerário em seu país.
A reportagem resume quem são eles, como vivem hoje, quanto ganharam com a fama e o que exatamente venderam.
Quem são os homens do “meme do caixão”
O grupo faz parte da empresa Nana Otafrija Pallbearing & Waiting Service, criada em Gana e liderada por Benjamin Aidoo. O serviço surgiu anos antes da internet transformá-los em piada visual: a proposta era oferecer funerais coreografados, com carregadores dançando, como forma de celebrar a partida do ente querido e tornar o cortejo mais “festivo”, algo culturalmente aceito em partes do país.
A apresentação chamou atenção de documentaristas, TVs e produtores locais. Em 2015, um vídeo do grupo já circulava mostrando o estilo dos funerais ganeses. Mas foi só em 2020, durante o início da pandemia, que as imagens explodiram mundialmente ao serem combinadas com a música eletrônica “Astronomia”, do DJ Tony Igy e do duo Vicetone.
A partir daí, qualquer tombo, erro ou situação “antes da tragédia” ganhava a mesma sequência: corte brusco para os ganeses dançando com o caixão.
Do meme à marca: o que mudou na vida deles
A fama global não derrubou o negócio — ampliou.
Benjamin Aidoo e o grupo:
- passaram a ser convidados para comerciais, clipes, campanhas digitais e participações especiais em eventos;
- fortaleceram a identidade visual (terno preto, gravata, boina, óculos escuros, coreografia marcante);
- consolidaram a empresa como referência em funerais personalizados em Gana e em apresentações especiais fora do contexto fúnebre, sempre com autorização do cliente e tom respeitoso.
Eles também abraçaram o próprio meme. Em vez de rejeitar as montagens, incorporaram o humor de forma estratégica — inclusive em mensagens de conscientização na pandemia, com vídeos dizendo, em tradução livre: “Fique em casa ou dance conosco”, usando o impacto da imagem para falar de prevenção.
Hoje, o “meme do caixão” é parte da identidade comercial deles. O grupo continua oferecendo serviços de pallbearers em funerais em Gana e participa de ações midiáticas, mantendo presença ativa em redes sociais e na imprensa internacional.
NFT milionário: quanto eles ganharam com o meme
Um dos momentos mais simbólicos da virada do meme em negócio ocorreu em 2022, quando o grupo lançou o NFT oficial do Coffin Dance.
- O token, baseado no vídeo original, foi leiloado por 327 ETH, o que na época equivalia a cerca de US$ 1 milhão (o valor em moeda tradicional varia conforme a cotação do Ethereum).
- Segundo os organizadores, parte relevante da quantia foi destinada a causas sociais, incluindo apoio à Ucrânia após o início da guerra, por meio de uma fundação de auxílio.
- O restante ficou com os criadores do conteúdo (incluindo o grupo e parceiros), como forma de reconhecimento pelo impacto cultural e pela circulação global das imagens.
O leilão digital teve duas funções importantes: monetizar um conteúdo que já era replicado à exaustão e reforçar a autoria, algo muitas vezes ignorado quando um vídeo viraliza sem crédito.
Eles ainda fazem funerais?
Sim. Essa é a base do negócio.
Os Dancing Pallbearers continuam prestando serviços funerários em Gana, com:
- cortejos coreografados;
- apresentações formais, com protocolos específicos;
- pacotes sob encomenda para famílias que desejam uma despedida mais celebrativa.
Benjamin Aidoo já relatou em entrevistas que, apesar do humor associado ao meme, o trabalho é tratado com seriedade nas cerimônias. A dança, nesses contextos, é parte de um ritual escolhido pela família para homenagear quem partiu — não uma “piada” com a morte.
O grupo também participa de gravações, comerciais e aparições especiais em eventos, o que ajuda a diversificar as fontes de renda, mas não substitui totalmente a atividade original.
Fama, boatos e como eles lidam com a própria imagem
Com a exposição global, também vieram distorções. De tempos em tempos surgem boatos em redes sociais dizendo que algum membro do grupo morreu, foi preso ou teria sido “amaldiçoado” pela dança com caixões. Até o momento, não há evidências confiáveis que sustentem essas narrativas sensacionalistas.
A imagem pública deles, hoje, mistura:
- símbolo de humor na cultura da internet;
- cartão de visitas da tradição funerária ganesa para o mundo;
- exemplo de como um conteúdo viral pode ser profissionalizado, gerando renda para quem aparece no vídeo original.
Em entrevistas, Benjamin Aidoo costuma reforçar dois pontos:
- orgulho por ter levado a cultura de seu país para o cenário global;
- responsabilidade em mostrar que, por trás da dança, existe um serviço real, famílias enlutadas e respeito à memória dos mortos.
Quanto, afinal, eles ganharam com tudo isso?
Não existe um balanço público completo, mas é possível apontar:
- receita significativa com:
- campanhas publicitárias;
- presenças especiais;
- licenciamento da imagem;
- venda do NFT do Coffin Dance (cerca de US$ 1 milhão na cotação da época do leilão);
- fortalecimento da empresa de pallbearers, que passou a ser procurada por famílias e curiosos do mundo inteiro.
Mais importante que um número exato é o contexto: diferentemente de tantos virais em que os protagonistas nunca veem retorno financeiro, os homens do “meme do caixão” conseguiram transformar a fama em marca, trabalho e impacto social.
Do viral ao legado
O “meme do caixão” começou como recorte humorístico de um ritual local e virou linguagem universal para falar de risco, fracasso e ironia na internet. Mas, fora da tela, os protagonistas seguem em Gana, trabalhando, dançando com caixões quando contratados e capitalizando com inteligência sobre a própria imagem.
Eles são, ao mesmo tempo:
- empreendedores da indústria funerária;
- ícones pop globais;
- exemplo raro de viral que voltou para o bolso certo.
E, se depender deles, a mensagem é simples: podem brincar com o meme, mas não esqueçam que por trás daqueles passos existe cultura, profissão e gente de verdade.
