Nas últimas semanas, um vídeo intrigante circulou nas redes sociais. Nele, uma mulher aparentemente comum desembarca no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, e apresenta aos agentes da imigração um passaporte emitido por “Torenza” — um país que não existe em nenhum mapa. Segundo as legendas que acompanham a gravação, a passageira teria vindo de Tóquio e desaparecido misteriosamente após ser levada para uma sala de verificação.
A história se espalhou rapidamente, alimentando teorias sobre universos paralelos, viagens no tempo e até acobertamentos governamentais. No entanto, após uma análise detalhada, foi possível comprovar que o caso da “passageira de Torenza” não é real. Nenhuma autoridade norte-americana confirmou a ocorrência do fato, e o vídeo original não foi gravado no aeroporto JFK.
De acordo com verificações realizadas por especialistas em checagem de fatos, o conteúdo foi retirado de um programa de televisão norte-americano chamado Airline, que mostrava o cotidiano de funcionários de companhias aéreas. No episódio original, exibido há mais de uma década, a mulher em questão não fala inglês e enfrenta dificuldades de comunicação, mas em nenhum momento apresenta um passaporte falso ou menciona o nome “Torenza”.
O que há de verdade por trás da lenda
A história da “passageira de Torenza” é inspirada em uma lenda urbana muito mais antiga: o caso do “Homem de Taured”. Segundo a narrativa, em 1954 um homem teria desembarcado em Tóquio portando um passaporte de um país inexistente chamado Taured. Ele teria sido levado para um hotel sob vigilância e, na manhã seguinte, desaparecido sem deixar rastros.
Essa história, no entanto, também tem uma origem mais racional. Documentos históricos mostram que, em 1959, um homem chamado John Allen Kuchar Zegrus foi preso no Japão por falsificação de passaporte. Ele alegava ser natural de uma nação africana chamada “Taured”, mas as investigações mostraram que o documento era fraudulento. Zegrus foi condenado a um ano de prisão, e seu caso acabou inspirando a criação da lenda que persiste até hoje.
O vídeo recente que menciona “Torenza” segue a mesma fórmula: mistura de elementos verossímeis, ambientação realista e ausência de fontes verificáveis. O resultado é uma narrativa convincente que se espalha rapidamente nas redes. A diferença é que, agora, a tecnologia de edição e as ferramentas de inteligência artificial tornam mais fácil criar conteúdos que aparentam autenticidade.
Especialistas em comunicação digital alertam que esse tipo de material é produzido justamente para gerar engajamento, cliques e compartilhamentos. A combinação entre mistério, viagem e desaparecimento desperta curiosidade, mesmo quando os fatos não se sustentam.
O próprio aeroporto JFK divulgou uma nota desmentindo o caso. Segundo as autoridades, não existe registro de nenhuma mulher com passaporte de “Torenza”, tampouco qualquer ocorrência de desaparecimento nas circunstâncias descritas.
