Meio Ambiente

Extinção do dugongo na China expõe destruição das ervas marinhas

Os autores aplicaram uma análise espácio-temporal e observaram um padrão incomum: o dugongo sumiu quase simultaneamente em toda a sua faixa histórica na China.

Atualizado 4 meses atrás
Dugongo | Foto: Reprodução
Dugongo | Foto: Reprodução

O dugongo (Dugong dugon) desapareceu das águas chinesas em um intervalo muito curto. Um estudo publicado em 22 de outubro de 2025 na Royal Society Open Science traz a confirmação, com base em entrevistas presenciais com 841 pescadores ao longo de todo o antigo alcance da espécie no país.

Os pesquisadores reconstruíram um histórico de avistamentos e descobriram que a média do “último encontro” com o mamífero ocorreu em 1983 ± 14. Após um encalhe registrado em 2008, apenas um relato recente apareceu: uma captura acidental em 2021, em Maoming. Fora esse episódio, não houve novos registros. O resultado consolida a conclusão de extinção funcional do dugongo na China, ou seja, uma população sem reposição natural.

Além de confirmar o desaparecimento, o trabalho ampliou a faixa histórica conhecida. Pescadores relataram avistamentos em Shantou, o que empurra o limite norte em cerca de 500 km no continente. O levantamento também mapeou pradarias de ervas marinhas e avistamentos no Mar do Sul da China, além das áreas já reconhecidas.

Os autores aplicaram uma análise espácio-temporal e observaram um padrão incomum: o dugongo sumiu quase simultaneamente em toda a sua faixa histórica na China. Em outras palavras, não houve retração gradual da área de ocorrência antes do colapso, como se vê em muitas extinções. Isso sugere dois gatilhos principais: perda massiva de ervas marinhas e pressões humanas, como pesca e capturas acidentais.

(A) Distribuição do dugongo nas águas chinesas.(B) Percentual de informantes que pescam em seis diferentes áreas e relataram avistamentos de dugongos. (C) Distribuição temporal das últimas datas de avistamento de dugongos em diferentes regiões. A linha tracejada vermelha indica a média da última data de avistamento. (D) Média e intervalos de confiança de 95% para a estimativa linear ótima da data de extinção regional dos dugongos em diferentes áreas.

(A) Distribuição do dugongo nas águas chinesas. (B) Percentual de informantes que pescam em seis diferentes áreas e relataram avistamentos de dugongos. (C) Distribuição temporal das últimas datas de avistamento de dugongos em diferentes regiões. A linha tracejada vermelha indica a média da última data de avistamento. (D) Média e intervalos de confiança de 95% para a estimativa linear ótima da data de extinção regional dos dugongos em diferentes áreas.

Como o estudo foi feito

Entre 10 de julho e 13 de agosto de 2024, durante a época de defeso, a equipe visitou 54 vilas em 27 cidades nas províncias de Fujian, Guangdong, Guangxi e Hainan. Só pescadores profissionais foram entrevistados, após verificação de identificação do animal por cartas-foto. A base combinou dados das entrevistas de 2024 com registros de 2019 e fontes históricas para estimar datas regionais de extinção usando OLE (Optimal Linear Estimation) e bootstrap, método robusto para séries raras.

Por que isso importa

O trabalho mostra como uma megafauna marinha pode colapsar em 20–30 anos, sem sinais claros de “encolhimento” territorial. Esse padrão complica alertas precoces e exige respostas rápidas, com foco em proteção de ervas marinhas e redução de capturas acidentais.

Conexão com o Brasil e Alagoas

O Brasil abriga o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus), mamífero também dependente de pradarias de fanerógamas marinhas e áreas rasas. A experiência chinesa reforça a urgência de mapear e proteger esses habitats no Nordeste, inclusive em Alagoas, além de fortalecer protocolos com a pesca artesanal para evitar emalhes. O recado é direto: sem ervas marinhas, não há futuro para sirênios.

Principais achados do estudo

  • 841 entrevistas reconstruíram o alcance histórico e a dinâmica de desaparecimento.
  • Média do último avistamento: 1983 ± 14; último encalhe confirmado: 2008.
  • Apenas um registro após 2008: captura incidental em 2021.
  • Faixa histórica ampliada: avistamentos até Shantou (≈ +500 km ao norte).
  • Sem retração de área antes do colapso: desaparecimento quase simultâneo.
  • Degradação de ervas marinhas relatada pela maioria dos informantes próximos aos locais de avistamento.

O que governos e pesquisa podem fazer

  • Mapear e restaurar pradarias de ervas marinhas em larga escala.
  • Mitigar emalhes com ajustes de artes de pesca e zonas de exclusão.
  • Acelerar monitoramento com ciência cidadã qualificada e protocolos fotográficos.
  • Reforçar áreas protegidas com fiscalização efetiva e metas de habitat.

Fonte: “Interview-based sighting history to investigate the historical range and dynamics of dugongs in China”, Royal Society Open Science, 22.out.2025.