UNIÃO DOS PALMARES (AL) — Em 19/06/1955, Maria Mariá assinou um texto que mexe com um ponto sensível da história local: a relação de União dos Palmares com o seu filho mais célebre, Jorge de Lima.
Em vez de reverência automática, ela expôs um sentimento que, segundo a própria cronista, circulava na cidade: União não “morria de amores” pelo poeta.
O artigo, intitulado “Jorge de Lima, um velho tema”, não é um ataque literário. É uma cobrança. Maria Mariá faz questão de dizer que não se trata de animosidade, mas de um distanciamento construído por episódios concretos e pela impressão de que o poeta, apesar do tamanho nacional, teria dedicado pouco retorno ao lugar onde nasceu.
Para sustentar o argumento, ela puxa um caso que virou símbolo do desconforto: o “caso dos livros” ligado à biblioteca que leva o nome de Jorge de Lima. E, a partir daí, amplia o debate: para ela, homenagem sem conteúdo vira fachada — e a cidade não deveria aceitar memória pública apenas como placa, busto ou cerimônia.
O que o artigo diz, em resumo (19/06/1955)
- Ela nega “animosidade” contra Jorge de Lima, mas afirma que havia pouco entusiasmo em União por ser o berço do poeta.
- Ela aponta a percepção de pouca reciprocidade: a ideia de que o escritor teria dedicado pouco interesse à cidade natal.
- Ela retoma o “caso dos livros” enviados à biblioteca local: a chegada de caixas com conteúdo que ela considerou inadequado para uma biblioteca que pretendia ser referência.
- Ela defende homenagem com critério: busto e praça têm valor quando fazem sentido e não viram apenas “decoração” urbana.
Leia a transcrição integral do artigo
Texto publicado em 19/06/1955 (domingo), na Página dos Municípios do Jornal de Alagoas. Transcrição preservada no PDF/e-book “Uma década de prosa: impressos e impressões da professora e jornalista Maria Mariá (1953–1959)”, de Hebelyanne Pimentel da Silva (Editora da UECE/EdUECE, 2021).
JORGE DE LIMA, UM VELHO TEMA
“União dos Palmares e o poeta Jorge de Lima” foram as palavras que batizaram a reportagem do sr. Luiz Gutemberg, publicada domingo ultimo, na “Gazeta de Alagoas”.
No entanto quero esclarecer ao conhecido jornalista, alguns pontos obscuros da questão que podem ser assim resumidos: não há, em nosso meio, animosidade reinante contra o ilustre palmarino, dr. Jorge de Lima.
O que se nota é uma falta de entusiasmos nosso, em ter sido esta cidade, berço natal do grande vate. E esta falta de entusiasmo se não se justifica em todo, justifica-se em parte.
Em primeiro lugar, nossa gente sempre se ressentiu com o pouco interesse que o grande palmarino dedicou à sua terra.
Depois, para torna-lo menos simpático entre nós, veio o caso dos livros.
Quanda a Prefeitura mandou uma circular pedindo um ou alguns livros ao dr. Jorge de Lima, patrono de nossa Biblioteca, passou-se o tempo e não mais soubemos se a circular havia ou não chegado ao seu destino.
Depois alguns mêses após sua morte chegaram aqui dois enormes caixões contendo não livros para uma Biblioteca que se preze, e sim, verdadeiros alfarrábios sem utilidade nenhuma. (Estão aqui, na Prefeitura, para quem os quiser ver e admirar).
E se foi sua família quem mandou os livros como se justifica esta incúria da parte do poeta?
Por que, durante sua gloriosa vida, quis ele perder esta única oportunidade que teve de prestar seu primeiro e último beneficio à terra que lhe viu nascer?
Misterios da natureza humana.
E o caso do busto?
De fato, uma personalidade como o dr. Jorge de Lima, cujo nome projetou-se fora da pátria enriquecendo a literatura universal contemporânea, merece um busto em praça pública, tanto aqui, como em qualquer parte do país.
E de fato, está na Prefeitura um busto do grande poeta, à espera de um logradouro apropriado.
Já se falou em coloca-lo na praça “Basiliano Sarmento”, mas achamos meio esquisita a fusão de homenagens, pois que se saiba, no Brasil talvez não haja, por exemplo, uma praça “Rui Barbosa” com o busto de Marechal Deodoro.
Falar agora sobre a figura matuta do velho Basiliano Sarmento, seria u’a mistura de notáveis vultos palmarinos, uma vez que hoje pretendi apenas esclarecer um mal-entendido que criaram entre o povo desta terra e a personalidade do dr. Jorge de Lima.
Aliás, esta questão de homenagem, como por exemplo, nomes em ruas ou praças, é hoje coisa sem importância entre nós, figura decorativa apenas.
Então vejamos: por que razão temos em nossa cidade uma importante rua denominada “Miguel Palmeira”?
Quem foi este cidadão que o pó da terra de Santa Maria Madalena nunca teve a honra de ser pisado pelos tacões de seus sapatos?
E as ruas “Leão Veloso”, “Frei João”, “Gabino Besouro” e tantas outras?
Quem foram estes ilustras desconhecidos”.
Portanto, uma vez que a municipalidade palmarina tem em mãos o busto de seu mais ilustre filho, deve fazer justiça, dando-lhe uma praça para nela colocar seu busto, mas em compensação deve dar um busto de Basiliano Sarmento para ser colocado na praça de seu nome.
Assim sendo, serão homenageados os dois famosos palmarinos diametralmente famosos.
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