História

O dia em que um marido ciumento tentou matar Jorge de Lima em Maceió

Documentos revelam: relato de Povina Cavalcanti aponta que Jorge de Lima foi alvejado na Rua do Livramento antes de deixar Alagoas. Crime passional ou política? O BR104 investiga.

retrato colorizado do poeta jorge de lima utilizado para ilustrar materia sobre sua obra e legado literario
Retrato colorizado do poeta alagoano Jorge de Lima. Imagem publicada no perfil do Instagram do escritor Franco Maciel. (Foto: Reprodução)

HISTÓRIA DE ALAGOAS — A versão mais repetida nos livros escolares diz que Jorge de Lima (1893–1953), o filho mais ilustre de União dos Palmares, partiu para o Rio de Janeiro em busca de projeção literária e novos horizontes.

Mas existe um capítulo sombrio, quase esquecido, que reaparece em pesquisas acadêmicas da UFAL e em biografias antigas: antes da glória, Jorge de Lima teria sido alvo de um atentado a tiros, em plena luz do dia, no Centro de Maceió.

Se o gatilho tivesse funcionado ou a mira sido certeira, talvez o Brasil nunca tivesse lido obras primas como “Invenção de Orfeu”.

O registro mais forte desse episódio é atribuído a Carlos Povina Cavalcanti — também palmarino, advogado e jornalista, biógrafo do poeta. Em pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Alagoas (UFAL, 2019), o atentado é narrado como um fato que chocou a sociedade da época: Jorge foi alvejado “a tiros de revólver” em “pleno centro comercial”, gerando indignação pública.

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Retrato de Carlos Povina Cavalcanti em ilustração histórica. (Foto: Reprodução)

O BR104 traz agora os detalhes desse “quebra-cabeça” histórico, tratando o caso como relato biográfico e acadêmico — e não como sentença definitiva —, enquanto inicia a busca pelo registro policial original da época.

O Cenário

O palco do crime apontado nas versões históricas é o Centro de Maceió, área de intensa circulação da elite intelectual. Naquele período, Jorge de Lima já era uma figura pública de peso: médico renomado, intelectual influente e nome forte na política local.

Segundo a tradição histórica e jornalística local, o crime teria ocorrido nas proximidades da Rua do Livramento, no caminho para o Liceu Alagoano. Jorge teria sido abordado na rua e se tornado alvo dos disparos.

A tragédia só não se consumou — e o poeta sobreviveu para contar a história — graças à intervenção de terceiros. Relatos apontam que um amigo de Jorge, o médico Dr. Adalberto Montenegro, estaria presente e teria contido o agressor, impedindo um segundo disparo fatal.

O Mistério: Quem atirou e por quê?

Aqui mora o detalhe que transforma essa história em uma investigação de alto impacto. Quem queria ver Jorge de Lima morto?

Em pesquisa citada pela UFAL, surge um nome: Rodolfo Lins Calheiros de Albuquerque. Ele é apontado em uma das versões como o autor do atentado. A motivação, longe da política partidária que fervilhava no pós-1930, seria de ordem pessoal e passional.

  • A Tese do Conflito: Rodolfo teria acreditado que sua esposa, Helena, mantinha algum tipo de relação ou proximidade com Jorge de Lima. Movido por ciúmes ou defesa da honra (muito comum à época), ele teria decidido atentar contra a vida do médico e poeta.

Embora o Brasil vivesse uma tensão política imensa em 1931, os registros biográficos encontrados até agora inclinam-se para essa motivação.

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Trecho do texto “O dia em que um marido ciumento tentou matar Jorge de Lima em Maceió”, que aborda elementos biográficos do poeta presentes em sua obra. (Foto: Reprodução)

As Duas Versões (A Divergência das Datas)

O BR104 identificou um conflito de datas que exige apuração rigorosa:

  1. Versão Acadêmica (UFAL): Cita uma data em agosto de 1931 (possivelmente dia 19), relacionando o episódio ao conflito familiar envolvendo Rodolfo Lins.
  2. Versão da Tradição Local: Detalha a cena com precisão de horário, citando o dia 31 de agosto de 1931, por volta das 14h30.

Independentemente da data exata, o desfecho converge: o atentado aconteceu e abalou profundamente o poeta.

A Consequência: A Fuga para o Rio

Menos de um mês após a suposta data do atentado, Jorge de Lima tomou a decisão que mudaria sua vida. A pesquisa da UFAL registra: em 27 de setembro de 1931, ele deixa Maceió rumo ao Rio de Janeiro.

O BR104 trabalha com a hipótese jornalística mais responsável: a violência sofrida no Centro de Maceió não foi a única causa, mas pode ter pesado decisivamente na escolha de abandonar Alagoas, somando-se ao cenário político instável da época.

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