A adaptação de “Frankenstein” dirigida por Guillermo del Toro e lançada pela Netflix vai além do terror clássico e coloca o foco nos personagens como raramente se viu na história criada por Mary Shelley. Com Jacob Elordi como a Criatura, Oscar Isaac como Victor Frankenstein, Mia Goth em papel duplo e um elenco de apoio carregado de simbolismo, o filme entrega camadas que muitos espectadores deixam passar.
Mais do que sustos ou referências ao mito, a narrativa constrói uma espécie de mapa emocional em que cada personagem revela, de um jeito diferente, o que é ser humano, monstruoso, culpado ou abandonado. A seguir, sete detalhes de construção de personagem que ajudam a entender por que essa versão já é uma das mais comentadas do ano.
1. A Criatura de Jacob Elordi é tratada como filho rejeitado, não como vilão
A interpretação de Jacob Elordi foge do estereótipo do “monstro” brutamontes. A Criatura observa, tenta imitar gestos humanos, busca afeto e reage à rejeição com dor antes de violência. O corpo remendado contrasta com a postura sensível, reforçando a ideia de alguém criado sem ter pedido para existir. Del Toro e Elordi aproximam o personagem de um filho abandonado, deslocando o medo para a atitude de quem o criou.
2. Victor Frankenstein, de Oscar Isaac, é o monstro elegante da história
O Victor de Oscar Isaac não é apenas um cientista obcecado: é carismático, culto, sedutor e, justamente por isso, mais perigoso. Ele usa a inteligência para justificar decisões éticas questionáveis, instrumentaliza a dor alheia, transforma a Criatura em experimento descartável e se esconde atrás de traumas e crenças para evitar assumir responsabilidade. A construção faz dele o “monstro socialmente aceitável”, aquele que a sociedade aplaude enquanto ignora os danos que provoca.
3. Mia Goth em dupla função expõe a obsessão de Victor
Mia Goth interpreta Elizabeth e a Baronesa Frankenstein, mãe de Victor, em uma decisão que não é apenas estética. A sobreposição de rostos sugere que Victor projeta na noiva e nas mulheres ao redor a memória idealizada da mãe, misturando desejo, culpa e controle. Esse detalhe visual reforça o quanto ele tenta domesticar a vida — e as pessoas — ao seu gosto, aproximando o experimento científico de uma tentativa distorcida de recriar aquilo que perdeu.
4. O benfeitor de Christoph Waltz transforma ciência em arma e negócio
Henrich Harlander, vivido por Christoph Waltz, não é só patrocinador: ele encarna a pressão econômica e bélica sobre o trabalho de Victor. É ele quem enxerga a Criatura como produto, instrumento e vitrine de poder. O personagem desloca parte da monstruosidade para quem financia e lucra com a experiência, lembrando que, nesse universo, decisões científicas nunca são neutras — têm dono, objetivo e preço.
5. O pai de Victor ajuda a explicar a frieza do cientista
O Barão Leopold Frankenstein (Charles Dance) surge como figura rígida, médica, moralista e distante. A forma como ele trata Victor e o peso do sobrenome funcionam como chave para entender por que o protagonista olha pessoas como peças ajustáveis. O filme sugere que o cientista aprendeu cedo a associar valor humano a desempenho, perfeição e controle — e leva essa lógica ao extremo ao montar a Criatura.
6. O velho cego é o único que enxerga a Criatura como humano
O homem cego que acolhe a Criatura é o personagem que melhor decodifica a humanidade escondida naquele corpo. Sem ver as cicatrizes, ele escuta, conversa, orienta e oferece abrigo. A relação mostra, em pouco tempo de tela, quem a Criatura poderia ser se tivesse recebido aceitação desde o início. É também um contraste direto com Victor e com a sociedade que reage com medo imediato à aparência.
7. Cada relação espelha a ideia central de del Toro: criar é assumir responsabilidade
As conexões entre Criatura, Victor, Elizabeth, Harlander, o pai e o velho cego formam um círculo temático: toda criação carrega uma responsabilidade que não pode ser simplesmente descartada. Quando Victor abandona a Criatura, quando Harlander tenta explorá-la, quando a sociedade a persegue, o filme deixa claro onde está a verdadeira monstruosidade. Del Toro reforça uma visão que acompanha sua carreira: muitas vezes, o “monstro” com cicatrizes é o mais honesto em cena — e os personagens socialmente aceitos são os que produzem as feridas.
