Economia

Trump recua e derruba tarifaço contra o Brasil; veja como fica

Ordem assinada por Donald Trump nesta quinta-feira (20) encerra tarifa extra de 40% sobre produtos do Brasil e alivia setores do agronegócio.

Presidente Donald Trump - @Reprodução
Presidente Donald Trump - @Reprodução

O fim do tarifaço dos EUA ao Brasil, anunciado nesta quinta-feira (20) pelo presidente Donald Trump, encerra a cobrança de uma tarifa extra de 40% sobre centenas de produtos brasileiros. A decisão atinge principalmente itens do agronegócio, como café, carne bovina e suco de laranja, e é válida de forma retroativa para mercadorias que entraram em território americano a partir de 13 de novembro.

Na prática, a medida desmonta o pacote de sobretaxas que, desde agosto, elevava em até 50% o custo de importação de vários produtos do Brasil. A alíquota adicional havia sido criada em meio à crise diplomática entre os dois países, depois de a Casa Branca alegar necessidade de proteger produtores americanos e reagir à política brasileira em temas como regulação de plataformas digitais e tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O governo brasileiro reagiu na época ao tarifaço acionando a Organização Mundial do Comércio e aprovando uma lei que autorizou a aplicação de tarifas recíprocas sobre produtos americanos. Além disso, o Itamaraty manteve articulações diplomáticas e canais de diálogo com Washington, tentando reduzir o impacto para exportadores, especialmente dos setores de café, carne e sucos.

A nova ordem executiva de Trump revoga a alíquota extra de 40% para uma lista ampla de produtos agrícolas e alguns bens industriais. O texto menciona o “progresso nas negociações” com o Brasil e recomendações da equipe econômica americana, que apontou efeitos das tarifas sobre a inflação de alimentos e insumos nos Estados Unidos. A base legal de emergência, porém, permanece em vigor, permitindo eventuais novas medidas se a crise voltar a se agravar.

Outro ponto importante é o reembolso das taxas pagas nas últimas semanas. Segundo o governo americano, importadores poderão solicitar a devolução do que foi cobrado a mais desde 13 de novembro, seguindo as regras da alfândega dos EUA. Exportadores brasileiros ainda aguardam orientações detalhadas sobre o procedimento, mas entidades do setor avaliam que a devolução pode amenizar parte das perdas recentes.

Encontro entre Donald Trump e o presidente Lula - @Reprodução

Encontro entre Donald Trump e o presidente Lula – @Reprodução

O que muda com o fim do tarifaço dos EUA

O café é um dos setores que mais sentem o efeito imediato do fim do tarifaço dos EUA ao Brasil. Os Estados Unidos estão entre os principais destinos do café brasileiro e compram tanto grãos tradicionais quanto cafés especiais. Com a sobretaxa de até 50%, o produto do Brasil perdeu competitividade e viu parte do mercado ser ocupada por concorrentes da América Central, da Colômbia e do Vietnã.

Representantes do setor relatam queda expressiva nas vendas de cafés especiais para o mercado americano nos últimos meses, com contratos redirecionados para Europa, Ásia e outros destinos. Agora, com a retirada da tarifa extra, a expectativa é de retomada gradual desses contratos ao longo de 2026, embora o ritmo dependa de fatores como câmbio, preços internacionais e confiança de compradores que buscaram novos fornecedores durante a crise.

Na cadeia da carne bovina, a reversão da medida também é vista como um alívio. As exportações para os EUA vinham em alta antes da adoção do tarifaço, com crescimento significativo em volume e faturamento. A imposição da tarifa de 50% encareceu o produto no mercado americano, reduziu a atratividade para importadores e levou frigoríficos a reforçar vendas para outros países, como China e nações europeias.

Com o fim da sobretaxa, empresas do setor de carne avaliam que os EUA voltam a ser uma alternativa importante para cortes de maior valor agregado. A expectativa é de recuperação gradual dos embarques destinados a redes de restaurantes e supermercados americanos, o que pode se refletir na manutenção de empregos e em maior previsibilidade para produtores rurais que abastecem os frigoríficos.

O suco de laranja também é diretamente impactado pela mudança. Uma parte relevante do suco consumido nos Estados Unidos é produzida com laranja brasileira, e o setor havia alertado para possíveis perdas bilionárias se as tarifas se mantivessem por uma safra inteira. Mesmo sob a pressão do tarifaço, os embarques seguiram firmes por causa de problemas de produção em outros polos fornecedores, mas a margem das empresas ficou mais apertada.

Sem a tarifa extra, a indústria de sucos espera reduzir custos, melhorar a rentabilidade e garantir ambiente mais estável para contratos de longo prazo com compradores americanos. A medida tende ainda a aliviar pressões de preço ao consumidor final nos Estados Unidos, especialmente em um cenário de preocupação com o custo de vida e com a inflação de alimentos.

Donald Trump - @Reprodução

Donald Trump – @Reprodução

Impacto no Brasil 

O fim do tarifaço dos EUA ao Brasil é visto por especialistas em comércio exterior como um passo importante para reduzir a tensão entre os dois países, mas não encerra todos os pontos da crise. O painel aberto pelo governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio continua em andamento, e outras medidas adotadas por Washington, como sanções individuais a autoridades, permanecem em vigor.

A equipe econômica do governo Lula acompanha os desdobramentos e deve medir, nos próximos meses, o impacto real sobre exportações, arrecadação e geração de empregos. Estados com forte relação comercial com os EUA, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tendem a sentir mais rapidamente os efeitos da mudança. Regiões produtoras de café, carne e frutas também aguardam a reabertura de contratos e uma recomposição gradual da demanda.

No Nordeste, especialistas apontam que produtores ligados a cadeias de carne, frutas e derivados podem se beneficiar indiretamente do movimento, seja pelo aumento da procura por insumos, seja pelo maior fluxo no comércio exterior brasileiro. Portos e terminais logísticos espalhados pelo país também podem registrar incremento na movimentação de cargas ligadas ao agronegócio.

Politicamente, o governo Lula tenta atribuir o recuo americano ao resultado de uma estratégia que combina firmeza com diálogo. Auxiliares do presidente destacam que o Brasil não abandonou a via multilateral nem rompeu canais diplomáticos, e que isso teria contribuído para a decisão anunciada por Trump. Por outro lado, críticos do governo apontam que o fim do tarifaço também atende a interesses internos dos EUA, pressionados pela alta de preços.

Nos dois lados, a avaliação de bastidores é que o episódio diminui a temperatura da crise, mas deixa pendentes temas mais difíceis, como a regulação das grandes plataformas digitais, a cooperação em segurança e o papel do Brasil em fóruns internacionais. Para exportadores brasileiros, porém, o recado prático desta quinta-feira é direto: com o fim do tarifaço, café, carne e suco voltam a respirar no mercado americano, abrindo espaço para recuperar negócios interrompidos em 2025.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acena com o polegar para cima durante evento público, usando boné azul com a frase “O Brasil é dos brasileiros” | @ Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acena com o polegar para cima durante evento público, usando boné azul com a frase “O Brasil é dos brasileiros” | @ Foto: Ricardo Stuckert