A morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695, marcou um dos episódios mais decisivos da história do Brasil colonial. Documentos da época indicam que o líder do Quilombo dos Palmares só foi localizado após uma traição interna, que permitiu às tropas coloniais descobrir seu esconderijo na Serra da Barriga. O episódio é considerado um ponto de virada na queda definitiva de Palmares.
Pesquisas históricas mostram que o responsável pela entrega de Zumbi teria sido um antigo companheiro de Palmares, identificado em fontes coloniais como Antônio Soares. Ele foi capturado ferido durante um confronto com tropas comandadas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho e, para salvar a própria vida, revelou o local onde Zumbi se recuperava.
Segundo registros preservados pelo Arquivo Histórico Ultramarino, Soares informou que Zumbi estava refugiado em uma gruta na serra, acompanhado de poucos aliados. A partir dessa informação, um grupo de soldados seguiu até o local e conseguiu surpreender o líder quilombola.
Historiadores afirmam que a traição foi decisiva porque Zumbi permanecia oculto e protegido pelo território. Para o pesquisador Décio Freitas, um dos maiores estudiosos de Palmares, o episódio quebrou uma das principais defesas do quilombo: o segredo sobre a movimentação de seus líderes. “A captura de Zumbi só foi possível graças à delação de um palmarino ferido. Sem essa informação, a perseguição ainda se prolongaria”, escreveu o historiador.
A morte de Zumbi marcou o início do declínio irreversível do quilombo, que já enfrentava anos de ataques, escassez de recursos e perda de territórios. Sem sua liderança, os últimos núcleos de Palmares resistiram por pouco tempo.
O impacto político da queda de Zumbi
Mesmo com a fragilidade crescente de Palmares, Zumbi representava, para o governo colonial, um símbolo de resistência a ser derrubado. Sua morte e a exposição de sua cabeça no Recife tinham um objetivo político claro: desestimular fugas, golpes de resistência e novas formações quilombolas.
No entanto, o efeito foi o oposto ao longo da história. A imagem de Zumbi se transformou em símbolo nacional e referência para movimentos de combate ao racismo e defesa dos direitos da população negra. Especialistas afirmam que a traição que o levou à morte acabou impulsionando sua transformação em ícone.
Para a historiadora Hebe Mattos, a força de sua memória está justamente na forma como resistiu até o fim. “Zumbi representa um projeto de liberdade que sobreviveu à destruição física de Palmares. Sua morte não eliminou sua influência, que permanece viva na cultura e na política brasileiras”, afirmou em estudos acadêmicos.
O legado que sobrevive
Embora o episódio da traição tenha sido decisivo para as tropas coloniais, pesquisadores ressaltam que Palmares não foi derrotado apenas por força militar. O quilombo resistiu por quase um século, desafiando a lógica da escravidão e demonstrando capacidade de organização social, política e militar.
Hoje, Zumbi é lembrado como símbolo da Consciência Negra, e a Serra da Barriga, em União dos Palmares, tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil. A história de sua morte permanece como um dos capítulos mais marcantes da resistência negra no país.
