A possível existência de descendentes diretos de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história do Brasil, continua sendo uma das questões mais discutidas por historiadores, genealogistas e comunidades quilombolas. Até hoje, não há registros oficiais ou documentos capazes de comprovar uma linhagem genealógica direta, mas a memória coletiva mantém vivo o debate sobre essa ancestralidade.
Pesquisadores explicam que a dificuldade começa na própria formação do Quilombo dos Palmares, que funcionou entre os séculos XVII e XVIII sem registros civis organizados. A maior parte dos documentos da época foi produzida por autoridades coloniais, que tratavam pessoas escravizadas apenas como “peças”, sem nomes completos ou vínculos familiares.
A historiadora Hebe Mattos, referência nos estudos sobre escravidão, afirma que é praticamente impossível estabelecer genealogias completas de pessoas negras do período colonial. Segundo ela, a ausência de documentação deixa lacunas irreparáveis: “Os arquivos coisificam essas pessoas. A memória familiar se perde em meio ao apagamento estrutural”, explica.
Outro fator decisivo é a migração forçada. Para a cientista social Marley Antonia Silva da Silva, movimentos compulsórios de população e a dispersão de comunidades dificultam a preservação de qualquer memória genealógica linear. Ela aponta que, em muitos casos, famílias quilombolas preservam histórias orais, mas não é possível transformá-las em árvore genealógica comprovada.

Desenho de Zumbi dos Palmares – @Reprodução
Comunidades quilombolas reivindicam ancestralidade simbólica
Apesar da ausência de provas formais, diversas famílias remanescentes de quilombos na região da Serra da Barriga, em União dos Palmares, reconhecem-se como “herdeiras de Zumbi”. Para essas comunidades, a ancestralidade está menos ligada a documentos e mais ao pertencimento histórico.
Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal do Pará (UFPA) mostram que a construção identitária dessas famílias se apoia em narrativas de resistência, memória coletiva e continuidade cultural. Elas afirmam ser descendentes não apenas de Zumbi, mas de toda a população que formou Palmares.
Especialistas destacam que esse reconhecimento simbólico tem grande relevância social. Para o antropólogo Luiz Silva, a ancestralidade declarada pelos quilombolas “não é uma afirmação biológica, mas um vínculo histórico com o projeto de liberdade representado por Palmares”.
Linhagem direta: mito, ausência de provas e legado vivo
Embora histórias populares reforcem a ideia de que “descendentes de Zumbi” ainda existam, nenhum estudo genealógico, arqueológico ou genético confirmou essa possibilidade. Pesquisadores são unânimes em afirmar que a linhagem direta de Zumbi é impossível de ser rastreada com precisão, sobretudo por causa da destruição de informações na época colonial.
Mesmo assim, o legado do líder permanece vivo. Para muitos quilombolas e estudiosos, o mais importante não é a comprovação documental, mas a força simbólica representada por Zumbi dos Palmares — figura central na resistência negra e na luta por liberdade no Brasil.
