Cultura & Sociedade

As maiores mentiras ensinadas na escola sobre Zumbi e a escravidão no Brasil

Durante décadas, livros didáticos simplificaram ou distorceram fatos históricos sobre Zumbi e a escravidão; especialistas explicam o que realmente aconteceu.

Ilustração histórica retrata pessoas africanas escravizadas chegando ao Brasil durante o período colonial. - @Reprodução
Ilustração histórica retrata pessoas africanas escravizadas chegando ao Brasil durante o período colonial. - @Reprodução

O debate sobre o legado de Zumbi dos Palmares voltou ao centro das discussões neste mês, impulsionado pelo Dia da Consciência Negra e pela busca por informações mais precisas sobre a história do Quilombo dos Palmares. Pesquisadores afirmam que parte do que milhões de brasileiros aprenderam na escola sobre Zumbi e sobre a escravidão não corresponde ao que os estudos acadêmicos já consolidaram. Algumas informações foram simplificadas, romantizadas ou até invertidas ao longo do tempo.

Uma das distorções mais comuns é a ideia de que o Quilombo dos Palmares era um pequeno povoado escondido na mata. Documentos históricos e escavações mostram que se tratava de uma grande confederação de aldeamentos, com estrutura organizada, produção agrícola e defesa militar própria. O território ocupava uma área extensa na Serra da Barriga e reunia milhares de pessoas, sendo considerado o maior quilombo já identificado nas Américas.

Outra narrativa imprecisa é a de que Zumbi teria sido apenas um líder militar. Embora sua atuação no combate às expedições que tentavam destruir Palmares seja reconhecida, especialistas afirmam que ele também exercia influência política e social dentro da comunidade. Estudos recentes reforçam que Zumbi tinha papel central na articulação entre diferentes grupos que compunham o quilombo.

Também é comum a afirmação de que a escravidão no Brasil teria sido mais “branda” do que em outros países. Historiadores rejeitam essa interpretação e apontam que o sistema escravocrata brasileiro foi um dos mais longos do mundo, marcado por violência, castigos físicos, separação de famílias e exploração intensa. O país recebeu quase metade de todos os africanos escravizados enviados às Américas, e a abolição só ocorreu oficialmente em 1888.

Alguns livros didáticos antigos também chegaram a retratar que os quilombos eram formados apenas por escravos fugidos. As pesquisas mais recentes indicam que, além de pessoas que escaparam das fazendas, formavam Palmares indígenas, negros nascidos livres, mestiços e até brancos pobres que buscavam proteção ou sobrevivência. Essa composição diversa ajuda a explicar a longevidade da resistência.

Outra imprecisão recorrente é a de que Zumbi teria sido morto em batalha. Documentos da época mostram que ele foi capturado, ferido e executado em 1695. Sua morte foi usada como símbolo de repressão, mas sua história se transformou, ao longo dos séculos, em referência de resistência e luta por liberdade.

Para os especialistas, corrigir essas distorções é fundamental para compreender o impacto da escravidão no Brasil contemporâneo. Eles afirmam que a educação sobre o tema deve ser baseada em fontes confiáveis, pesquisas arqueológicas e documentos históricos, permitindo que novas gerações tenham uma visão mais completa do passado. A busca por informação correta ganha força neste período do ano, quando milhões de pessoas lembram a importância da Consciência Negra e do legado dos povos que lutaram pela liberdade no país.