Desde que foi detectado em julho de 2025 pelo projeto ATLAS, o cometa 3I/ATLAS tem sido alvo de desinformação e teorias sem base científica. Descoberto enquanto atravessava o Sistema Solar em trajetória hiperbólica, o objeto interestelar despertou curiosidade legítima — mas também deu origem a uma série de publicações virais com alegações incorretas.
O BR104 preparou uma lista com dez das principais fake news sobre o 3I/ATLAS e explica, com base em fontes oficiais, o que realmente se sabe até agora.
1. “O 3I/ATLAS é uma nave alienígena”
A hipótese surgiu em um pré-print sem revisão científica e foi amplificada em blogs e redes sociais.
Na realidade, análises orbitais e espectrais mostram comportamento natural de um cometa. O objeto emite gases, tem núcleo sólido e segue uma órbita compatível com corpos interestelares.
A NASA e a ESA descartam qualquer evidência de origem artificial.
2. “O cometa vai colidir com a Terra”
Diversos vídeos afirmam que o 3I/ATLAS se dirige ao planeta.
Falso. A menor distância registrada será de cerca de 1,8 unidade astronômica — o equivalente a 270 milhões de quilômetros.
Segundo a NASA, o objeto não representa risco nem sequer passará próximo da órbita terrestre.
3. “O James Webb flagrou estruturas metálicas no núcleo”
Circulam imagens atribuídas ao telescópio espacial, supostamente mostrando “formas regulares” ou “painéis”.
A verdade: o JWST registrou apenas dados espectroscópicos, revelando a presença de gases como CO₂ e H₂O, e não imagens fotográficas detalhadas. As fotos que circulam são criações digitais ou interpretações erradas.

3I/ATLAS – @Reprodução
4. “Sondas em Marte captaram fotos nítidas do 3I/ATLAS”
Postagens associam o nome da sonda ExoMars a imagens com suposto “formato de nave”.
Na prática, as câmeras orbitais de Marte não têm resolução para registrar detalhes de um objeto que está a dezenas de milhões de quilômetros. Nenhum órgão espacial confirmou esse tipo de captura.
5. “O cometa será visível a olho nu em outubro”
A promessa de um espetáculo celeste ganhou popularidade.
Mas o brilho projetado é baixo. O 3I/ATLAS deve ter magnitude entre 11 e 15, o que o torna invisível sem telescópio profissional. Nenhum observatório prevê visibilidade a olho nu.
6. “O núcleo tem dezenas de quilômetros de diâmetro”
Alguns sites afirmam que o 3I/ATLAS seria “o maior objeto interestelar da história”.
A estimativa mais aceita aponta diâmetro entre 3,5 e 11 km, baseado em medições de brilho e dispersão de poeira. Ainda não há consenso, e medições diretas não foram obtidas.
Mesmo no limite superior, não há nada “gigantesco” ou inédito.
7. “A presença de água foi confirmada no interior do cometa”
Matérias sensacionalistas afirmam que “há oceanos dentro do 3I/ATLAS”.
Na verdade, o que foi detectado é a emissão de hidroxila (OH), subproduto da fotodissociação da água. Isso indica vapor, não líquidos ou reservatórios internos. É o comportamento esperado de cometas aquecidos pela radiação solar.
8. “A trajetória do cometa foi programada artificialmente”
Vídeos afirmam que o movimento do 3I/ATLAS teria “padrão matemático perfeito” e, por isso, seria guiado.
Falso. O cometa segue uma órbita hiperbólica natural, típica de objetos interestelares, com velocidade superior à necessária para escapar do campo gravitacional solar. Nenhum desvio artificial foi detectado.
9. “O 3I/ATLAS não tem cauda e por isso é diferente dos cometas comuns”
Essa afirmação circulou antes das últimas observações.
Hoje já se sabe que o objeto desenvolveu uma cauda de gás e poeira, visível em telescópios de grande porte. Isso confirma sua natureza cometária e descarta hipóteses de corpo sólido metálico.
10. “Astrônomos já descobriram o período de rotação do núcleo”
Diversas publicações atribuem ao 3I/ATLAS um “movimento sincronizado” de rotação.
Ainda não há dados confiáveis. Observações fotométricas mostram variações de brilho, mas os cientistas não chegaram a um período definido. É possível que a rotação exista, mas permanece não comprovada.
A repercussão em torno do 3I/ATLAS repete o fenômeno visto com o ʻOumuamua, em 2017: a mistura de descobertas legítimas e especulações conspiratórias.
Para a comunidade astronômica, a principal lição é a mesma — divulgar com clareza o que é hipótese e o que é evidência. O cometa ainda será estudado nos próximos meses por telescópios da NASA, da ESA e por observatórios terrestres como o Vera Rubin, no Chile.
