O debate em torno do cometa interestelar 3I/ATLAS ganhou um novo capítulo após o astrofísico Avi Loeb, de Harvard, argumentar publicamente que algumas características do objeto seriam tão incomuns que poderiam ser “melhor explicadas” se ele fosse uma espaçonave alienígena, e não um cometa natural. A declaração viralizou, alimentou teorias na internet e chegou a manchetes no Brasil e no exterior.
Mas o que de fato se sabe sobre o 3I/ATLAS? O BR104 ouviu a documentação técnica disponível, comunicados oficiais de agências espaciais e a própria argumentação de Loeb para separar o que é dado concreto, o que é hipótese ousada e o que é pura distorção.
A seguir, perguntas e respostas para entender o caso com responsabilidade.
O que é o 3I/ATLAS?
O 3I/ATLAS é o terceiro objeto interestelar confirmado já observado passando pelo Sistema Solar. Ele segue os registros de 1I/ʻOumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019). O “3I” indica justamente isso: terceiro (“3”) interestelar (“I”).
Ele foi detectado em 1º de julho de 2025 pelo sistema ATLAS, no Chile, com trajetória hiperbólica — ou seja, não está preso ao Sol. Entra, passa e vai embora. Tanto a Agência Espacial Europeia (ESA) quanto a NASA classificam o 3I/ATLAS como cometa interestelar ativo.
Há risco de colisão com a Terra?
Não.
As projeções oficiais indicam que o 3I/ATLAS passa a grande distância do nosso planeta. Em dezembro de 2025, a aproximação mínima prevista é da ordem de centenas de milhões de quilômetros, algo como quase o dobro da distância média entre a Terra e o Sol, dependendo do ajuste orbital mais recente. Não há indicação de rota de impacto.
Quando manchetes falam em “evento cisne negro” ou sugerem reforço secreto de defesa planetária ligado a esse objeto, tratam de interpretações ou especulações, não de comunicados oficiais.
O que as observações já confirmaram sobre o cometa?
Vários pontos sólidos:
- Atividade cometária real
Telescópios e sondas detectaram coma (nuvem de gás e poeira) e jatos, comportamento típico de cometas. Não é um corpo “morto”. - Tamanho estimado
Observações do Hubble indicam que o núcleo do 3I/ATLAS deve ter diâmetro na faixa de algumas centenas de metros a poucos quilômetros, com limite superior em torno de 5,6 km. A faixa ainda é ampla porque o núcleo não é visto diretamente, apenas inferido pela atividade e pelo brilho. - Água detectada
Um estudo liderado por Dennis Bodewits, usando o telescópio Swift, detectou emissão de OH — assinatura indireta de água — quando o objeto ainda estava distante do Sol. A taxa estimada de liberação de água, cerca de 40 kg por segundo em uma das medições, coloca o 3I/ATLAS entre os cometas ativos mais interessantes observados longe do Sol. - Composição complexa
Dados do James Webb e de outros instrumentos apontam presença relevante de dióxido de carbono (CO₂) e sugerem diferenças na distribuição de voláteis em relação a cometas típicos do Sistema Solar, algo esperado para um visitante formado em outro sistema planetário.
Em resumo: tudo isso reforça que se trata de um cometa interestelar grande e muito ativo, cientificamente valioso, mas não automaticamente “artificial”.
De onde veio a frase de que ele é “um milhão de vezes maior” que outros objetos?
Nos textos e entrevistas, Avi Loeb compara a massa estimada do 3I/ATLAS com estimativas para 1I/ʻOumuamua, primeiro objeto interestelar detectado. Com base em cálculos próprios sobre jatos e perda de massa, ele sugere que o 3I/ATLAS poderia ser cerca de um milhão de vezes mais massivo que ʻOumuamua.
Alguns portais transformaram isso em “um milhão de vezes maior que asteroides conhecidos”, o que não é tecnicamente correto.
Pontos importantes:
- As estimativas de Loeb partem de suposições sobre geometria, composição e eficiência dos jatos, ainda debatidas.
- Medidas independentes, como as do Hubble, são compatíveis com um cometa de quilômetros de diâmetro, grande, porém dentro da faixa de objetos naturais conhecidos.
- Não há consenso científico de que ele seja “impossivelmente gigante” para ser natural.
Para o leitor: a comparação “um milhão de vezes maior” é uma formulação de impacto dentro do argumento de Loeb, não um dado fechado aceito pela comunidade.
O que Avi Loeb está defendendo?
Avi Loeb, professor de Harvard e líder do Projeto Galileu, ganhou projeção ao sugerir que 1I/ʻOumuamua poderia ter origem artificial e passou a defender que objetos interestelares “estranhos” devem ser analisados também sob a hipótese tecnológica.
No caso do 3I/ATLAS, ele:
- destaca o alto nível de atividade e estimativas de massa;
- questiona a probabilidade de um objeto tão grande surgir tão cedo na amostragem de interstelares;
- levanta a hipótese de que os jatos observados possam ser compatíveis com propulsores tecnológicos, em vez de simples sublimação de gelo;
- fala em “evento cisne negro” e em necessidade de protocolos globais para o caso de detecção de artefatos alienígenas.
Essas colocações têm peso porque vêm de um pesquisador de renome, mas permanecem no campo da especulação. Elas não representam a posição oficial da NASA, da ESA ou da maioria dos astrônomos envolvidos na campanha de observação.
O que dizem NASA, ESA e a maior parte dos cientistas?
Até o momento:
- 3I/ATLAS é tratado como cometa interestelar com propriedades peculiares, mas plausíveis dentro da física conhecida.
- O interesse elevado e a grande quantidade de instrumentos apontados para ele decorrem:
- da raridade de objetos interestelares;
- da oportunidade única de estudar composição e dinâmica de corpos formados em outros sistemas;
- da atividade incomum em grandes distâncias, que ajuda a ajustar modelos de cometas.
- Não há comunicado oficial de qualquer agência classificando o objeto como candidato sério a artefato tecnológico.
Astrônomos que criticam a abordagem de Loeb apontam que:
- muitos dos “sinais estranhos” podem ser explicados por incertezas de medição, efeitos geométricos ou processos de sublimação ainda pouco compreendidos em cometas interestelares;
- saltar cedo para a hipótese alienígena, antes de esgotar hipóteses naturais, mais confunde a opinião pública do que ajuda.
Em tom técnico: a hipótese de nave alienígena é hoje minoritária, considerada criativa, mas sem sustentação observacional robusta.
Por que tanta gente fala em “nave”, “encobrimento” e “ameaça”?
Três fatores se misturam:
- Histórico de Loeb
Ao propor cenários com tecnologia alienígena para outros objetos, ele já se tornou um nome associado a esse tipo de interpretação. Isso amplifica qualquer frase dele. - Comportamento do objeto
Um cometa interestelar muito ativo, observado por múltiplas sondas, com trabalhos científicos sendo publicados rapidamente, rende manchetes chamativas. - Ruído informativo
Em paralelo a dados reais, circulam:
- rumores sem fonte sobre supostas imagens secretas;
- leituras equivocadas do tamanho;
- interpretações exageradas sobre campanhas de observação como se fossem “operações de emergência”.
Nada disso, até aqui, é confirmado por documentos técnicos.
O que realmente importa acompanhar agora?
Para além do debate sobre “nave ou não”, o 3I/ATLAS é importante porque:
- ajuda a entender como se formam e evoluem cometas em outros sistemas planetários;
- coloca à prova modelos sobre quantidade de material sólido entre estrelas;
- mostra limites do nosso monitoramento: já é o terceiro objeto interestelar detectado em poucos anos, algo impensável antes de 2017;
- reforça a necessidade de programas estáveis de detecção e caracterização de objetos que cruzam o Sistema Solar.
Os próximos meses e anos, com dados adicionais de telescópios e sondas, devem esclarecer melhor:
- o tamanho real do núcleo;
- a fração ativa da superfície;
- a composição precisa da coma;
- eventuais variações na trajetória ligadas à perda de massa.
Se surgirem anomalias consistentes e não explicáveis por física conhecida, a discussão técnica se intensifica. Até lá, o quadro é: cometa interestelar raro, natural, sem risco de impacto, e com um debate aberto — onde a hipótese alienígena é uma entre várias, e hoje a menos sustentada.
