Ciência e Tecnologia

Cientista de Harvard insiste que 3I/ATLAS pode ser tecnologia alienígena disfarçada

Cometa interestelar 3I/ATLAS intriga cientistas. Avi Loeb fala em nave alienígena, mas NASA e ESA veem objeto natural raro; entenda o que se sabe.

Imagem ilustrativa do cometa 3i Atlas - @Reprodução
Imagem ilustrativa do cometa 3i Atlas - @Reprodução

O debate em torno do cometa interestelar 3I/ATLAS ganhou um novo capítulo após o astrofísico Avi Loeb, de Harvard, argumentar publicamente que algumas características do objeto seriam tão incomuns que poderiam ser “melhor explicadas” se ele fosse uma espaçonave alienígena, e não um cometa natural. A declaração viralizou, alimentou teorias na internet e chegou a manchetes no Brasil e no exterior.

Mas o que de fato se sabe sobre o 3I/ATLAS? O BR104 ouviu a documentação técnica disponível, comunicados oficiais de agências espaciais e a própria argumentação de Loeb para separar o que é dado concreto, o que é hipótese ousada e o que é pura distorção.

A seguir, perguntas e respostas para entender o caso com responsabilidade.

O que é o 3I/ATLAS?

O 3I/ATLAS é o terceiro objeto interestelar confirmado já observado passando pelo Sistema Solar. Ele segue os registros de 1I/ʻOumuamua (2017) e 2I/Borisov (2019). O “3I” indica justamente isso: terceiro (“3”) interestelar (“I”).

Ele foi detectado em 1º de julho de 2025 pelo sistema ATLAS, no Chile, com trajetória hiperbólica — ou seja, não está preso ao Sol. Entra, passa e vai embora. Tanto a Agência Espacial Europeia (ESA) quanto a NASA classificam o 3I/ATLAS como cometa interestelar ativo.

Há risco de colisão com a Terra?

Não.

As projeções oficiais indicam que o 3I/ATLAS passa a grande distância do nosso planeta. Em dezembro de 2025, a aproximação mínima prevista é da ordem de centenas de milhões de quilômetros, algo como quase o dobro da distância média entre a Terra e o Sol, dependendo do ajuste orbital mais recente. Não há indicação de rota de impacto.

Quando manchetes falam em “evento cisne negro” ou sugerem reforço secreto de defesa planetária ligado a esse objeto, tratam de interpretações ou especulações, não de comunicados oficiais.

O que as observações já confirmaram sobre o cometa?

Vários pontos sólidos:

  1. Atividade cometária real
    Telescópios e sondas detectaram coma (nuvem de gás e poeira) e jatos, comportamento típico de cometas. Não é um corpo “morto”.
  2. Tamanho estimado
    Observações do Hubble indicam que o núcleo do 3I/ATLAS deve ter diâmetro na faixa de algumas centenas de metros a poucos quilômetros, com limite superior em torno de 5,6 km. A faixa ainda é ampla porque o núcleo não é visto diretamente, apenas inferido pela atividade e pelo brilho.
  3. Água detectada
    Um estudo liderado por Dennis Bodewits, usando o telescópio Swift, detectou emissão de OH — assinatura indireta de água — quando o objeto ainda estava distante do Sol. A taxa estimada de liberação de água, cerca de 40 kg por segundo em uma das medições, coloca o 3I/ATLAS entre os cometas ativos mais interessantes observados longe do Sol.
  4. Composição complexa
    Dados do James Webb e de outros instrumentos apontam presença relevante de dióxido de carbono (CO₂) e sugerem diferenças na distribuição de voláteis em relação a cometas típicos do Sistema Solar, algo esperado para um visitante formado em outro sistema planetário.

Em resumo: tudo isso reforça que se trata de um cometa interestelar grande e muito ativo, cientificamente valioso, mas não automaticamente “artificial”.

De onde veio a frase de que ele é “um milhão de vezes maior” que outros objetos?

Nos textos e entrevistas, Avi Loeb compara a massa estimada do 3I/ATLAS com estimativas para 1I/ʻOumuamua, primeiro objeto interestelar detectado. Com base em cálculos próprios sobre jatos e perda de massa, ele sugere que o 3I/ATLAS poderia ser cerca de um milhão de vezes mais massivo que ʻOumuamua.

Alguns portais transformaram isso em “um milhão de vezes maior que asteroides conhecidos”, o que não é tecnicamente correto.

Pontos importantes:

  • As estimativas de Loeb partem de suposições sobre geometria, composição e eficiência dos jatos, ainda debatidas.
  • Medidas independentes, como as do Hubble, são compatíveis com um cometa de quilômetros de diâmetro, grande, porém dentro da faixa de objetos naturais conhecidos.
  • Não há consenso científico de que ele seja “impossivelmente gigante” para ser natural.

Para o leitor: a comparação “um milhão de vezes maior” é uma formulação de impacto dentro do argumento de Loeb, não um dado fechado aceito pela comunidade.

O que Avi Loeb está defendendo?

Avi Loeb, professor de Harvard e líder do Projeto Galileu, ganhou projeção ao sugerir que 1I/ʻOumuamua poderia ter origem artificial e passou a defender que objetos interestelares “estranhos” devem ser analisados também sob a hipótese tecnológica.

No caso do 3I/ATLAS, ele:

  • destaca o alto nível de atividade e estimativas de massa;
  • questiona a probabilidade de um objeto tão grande surgir tão cedo na amostragem de interstelares;
  • levanta a hipótese de que os jatos observados possam ser compatíveis com propulsores tecnológicos, em vez de simples sublimação de gelo;
  • fala em “evento cisne negro” e em necessidade de protocolos globais para o caso de detecção de artefatos alienígenas.

Essas colocações têm peso porque vêm de um pesquisador de renome, mas permanecem no campo da especulação. Elas não representam a posição oficial da NASA, da ESA ou da maioria dos astrônomos envolvidos na campanha de observação.

O que dizem NASA, ESA e a maior parte dos cientistas?

Até o momento:

  • 3I/ATLAS é tratado como cometa interestelar com propriedades peculiares, mas plausíveis dentro da física conhecida.
  • O interesse elevado e a grande quantidade de instrumentos apontados para ele decorrem:
    • da raridade de objetos interestelares;
    • da oportunidade única de estudar composição e dinâmica de corpos formados em outros sistemas;
    • da atividade incomum em grandes distâncias, que ajuda a ajustar modelos de cometas.
  • Não há comunicado oficial de qualquer agência classificando o objeto como candidato sério a artefato tecnológico.

Astrônomos que criticam a abordagem de Loeb apontam que:

  • muitos dos “sinais estranhos” podem ser explicados por incertezas de medição, efeitos geométricos ou processos de sublimação ainda pouco compreendidos em cometas interestelares;
  • saltar cedo para a hipótese alienígena, antes de esgotar hipóteses naturais, mais confunde a opinião pública do que ajuda.

Em tom técnico: a hipótese de nave alienígena é hoje minoritária, considerada criativa, mas sem sustentação observacional robusta.

Por que tanta gente fala em “nave”, “encobrimento” e “ameaça”?

Três fatores se misturam:

  1. Histórico de Loeb
    Ao propor cenários com tecnologia alienígena para outros objetos, ele já se tornou um nome associado a esse tipo de interpretação. Isso amplifica qualquer frase dele.
  2. Comportamento do objeto
    Um cometa interestelar muito ativo, observado por múltiplas sondas, com trabalhos científicos sendo publicados rapidamente, rende manchetes chamativas.
  3. Ruído informativo
    Em paralelo a dados reais, circulam:
    • rumores sem fonte sobre supostas imagens secretas;
    • leituras equivocadas do tamanho;
    • interpretações exageradas sobre campanhas de observação como se fossem “operações de emergência”.

Nada disso, até aqui, é confirmado por documentos técnicos.

O que realmente importa acompanhar agora?

Para além do debate sobre “nave ou não”, o 3I/ATLAS é importante porque:

  • ajuda a entender como se formam e evoluem cometas em outros sistemas planetários;
  • coloca à prova modelos sobre quantidade de material sólido entre estrelas;
  • mostra limites do nosso monitoramento: já é o terceiro objeto interestelar detectado em poucos anos, algo impensável antes de 2017;
  • reforça a necessidade de programas estáveis de detecção e caracterização de objetos que cruzam o Sistema Solar.

Os próximos meses e anos, com dados adicionais de telescópios e sondas, devem esclarecer melhor:

  • o tamanho real do núcleo;
  • a fração ativa da superfície;
  • a composição precisa da coma;
  • eventuais variações na trajetória ligadas à perda de massa.

Se surgirem anomalias consistentes e não explicáveis por física conhecida, a discussão técnica se intensifica. Até lá, o quadro é: cometa interestelar raro, natural, sem risco de impacto, e com um debate aberto — onde a hipótese alienígena é uma entre várias, e hoje a menos sustentada.