A crescente demanda da China por colágeno animal fez o jumento brasileiro se tornar um dos produtos mais disputados do mercado internacional. O país asiático utiliza a pele do animal na produção do ejiao, um tipo de gelatina usada há séculos na Medicina Tradicional Chinesa e considerada símbolo de vitalidade e longevidade.
No Brasil, essa procura estrangeira desencadeou uma corrida por peles, especialmente no Nordeste, onde está concentrada a maior parte da população desses animais. O resultado é uma crise ambiental e social, marcada pelo abate em massa e pelo risco de extinção da espécie.
A China consome milhões de peles de jumentos por ano para sustentar o mercado de ejiao, avaliado em bilhões de dólares. Como o rebanho chinês foi praticamente dizimado pelo ritmo de produção, o país passou a buscar fornecedores no exterior — e o Brasil, com clima favorável e grande número de animais soltos no semiárido, virou um dos principais alvos.
Pesquisas de organizações internacionais apontam que mais de 240 mil jumentos foram abatidos apenas na Bahia entre 2018 e 2024. O estado é o único do país com frigoríficos habilitados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para exportar peles.
Para os chineses, o colágeno extraído da pele do jumento é um produto valioso. Acredita-se que ele fortaleça o sangue, melhore o sistema imunológico e tenha propriedades rejuvenescedoras. Essa crença faz com que cada quilo de colágeno possa custar dezenas de vezes mais do que o valor pago pela matéria-prima no Brasil.

Jumento amarrado no cercado – @Reprodução
Com a ameaça crescente de desaparecimento dos jumentos no Nordeste, universidades federais se uniram em um esforço nacional para criar alternativas sustentáveis. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolveram um projeto pioneiro para produzir colágeno de jumento em laboratório, por meio de uma técnica chamada fermentação de precisão.
A tecnologia promete replicar o colágeno original sem abater animais, utilizando microrganismos programados com o DNA do jumento. Os primeiros resultados devem ser apresentados até o fim de 2026 e podem representar uma virada histórica na relação entre ciência e proteção animal.
Além da inovação biotecnológica, o estudo reacende um debate sobre o papel do Brasil nesse comércio global. Pesquisadores alertam que o país exporta matéria-prima de baixo valor e importa produtos de alto lucro, perpetuando uma lógica desigual.
“Estamos diante de um comércio extrativista que coloca em risco o patrimônio cultural e genético do Nordeste. O jumento foi essencial para o desenvolvimento da região e agora está desaparecendo por uma demanda estrangeira”, afirma uma das coordenadoras do projeto, doutora em zootecnia.
