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Mortos em megaoperação no Rio chegam a 132, segundo a Defensoria do RJ

O governo estadual trabalha com um balanço menor e diz que parte dos corpos ainda precisa passar por perícia e identificação.

Atualizado 3 meses atrás
Populares e policiais após operação no Rio de Janeiro Foto: Pablo Porciuncula/AFP
Populares e policiais após operação no Rio de Janeiro Foto: Pablo Porciuncula/AFP

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro informou que o número de mortos ligados à megaoperação policial realizada entre terça (28.out.2025) e a madrugada desta quarta-feira (29.out.2025) nos complexos da Penha e do Alemão chegou a 132. Segundo o órgão, equipes atuam no Instituto Médico-Legal (IML) e em áreas de mata próximas à Serra da Misericórdia, onde corpos estariam sendo localizados desde a madrugada.

O dado divulgado pela Defensoria Pública inclui quatro policiais mortos (dois da Polícia Civil e dois da Polícia Militar) e mais de uma centena de pessoas classificadas como suspeitas pelas forças de segurança. O órgão afirma que, na madrugada, moradores retiraram dezenas de corpos de áreas de mata e levaram esses corpos até a Praça São Lucas, na Penha, para forçar o registro oficial das mortes.

O governo do Estado do Rio de Janeiro, porém, apresenta um número menor. Em entrevista coletiva, o estado informou que reconhece oficialmente 119 mortos até agora, com parte dessas mortes atribuída a confronto armado com suspeitos ligados ao Comando Vermelho, facção criminosa que seria alvo da operação. Autoridades estaduais afirmaram também que a contagem ainda não inclui todos os corpos que foram levados por moradores para a praça na Penha e que cada caso precisa passar por perícia.

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A ação foi chamada oficialmente de Operação Contenção e mobilizou cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar, incluindo unidades especiais como BOPE e CORE, além do uso de blindados e helicópteros. O governo estadual descreveu a ofensiva como uma resposta ao avanço do Comando Vermelho em 26 comunidades da Zona Norte. A Defensoria Pública da União e entidades de direitos humanos classificaram o episódio como a operação policial mais letal da história recente do Rio de Janeiro.

O que dizem as autoridades

De acordo com a Secretaria de Estado de Polícia Militar e a Secretaria de Estado de Polícia Civil, o objetivo da megaoperação era cumprir mandados, prender lideranças da facção e apreender armas de grosso calibre. O balanço parcial divulgado pelo governo do estado cita dezenas de prisões, apreensão de fuzis e recolhimento de drogas.

O governador Cláudio Castro afirmou que houve confronto direto com grupos armados e que a operação seria, segundo ele, “a maior da história do estado” no enfrentamento ao crime organizado. O governo estadual também informou que pediu apoio do governo federal para transferir presos considerados de alta periculosidade para o sistema penitenciário federal.

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, a Defensoria Pública da União e organizações de direitos humanos contestam a forma como a ação foi conduzida. Em nota conjunta, esses órgãos afirmam que receberam relatos de desaparecimentos, retirada de corpos de áreas de mata por moradores e possível execução de pessoas sem julgamento. As entidades dizem que o episódio precisa ser tratado como fato que exige apuração independente, com perícia e preservação de cena.

Segundo a Defensoria Pública da União, a operação “produziu um cenário de letalidade que afronta parâmetros fixados pelo Supremo Tribunal Federal para ações policiais em áreas vulneráveis”, e que essas ações deveriam ser “excepcionais, justificadas e planejadas para reduzir risco à população civil”. O órgão afirma que operações que resultam em elevada letalidade precisam ser investigadas como possíveis violações de direitos humanos.

O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que peritos foram enviados ao IML para realizar perícia independente nos corpos levados por moradores à Praça São Lucas, na Penha, e que acompanha a identificação das vítimas. A Promotoria afirma que está monitorando o caso.

Até a última atualização desta reportagem, a Secretaria de Estado de Polícia Civil e a Secretaria de Estado de Polícia Militar não tinham divulgado publicamente a lista nominal de mortos reconhecidos oficialmente e nem a classificação de cada caso (morte em confronto, morte em circunstância não esclarecida, morte posterior). O governo do estado afirma que a perícia continuará nas próximas horas.

A Defensoria Pública e outras entidades apontam que a operação nos complexos da Penha e do Alemão supera, em letalidade, ações anteriores no Rio de Janeiro, incluindo a operação do Jacarezinho, em 2021, que até então era tratada como uma das mais mortais do estado. Para esses órgãos, o total de 132 mortos marca um novo patamar de alerta institucional e reforça a cobrança para que o estado apresente, de forma documentada, as circunstâncias de cada morte.

Segundo a Defensoria Pública da União, decisões do Supremo Tribunal Federal definiram que operações policiais em favelas devem ser justificadas formalmente, planejadas com critérios de redução de risco para moradores e acompanhadas por mecanismos de controle externo, especialmente em áreas de alta vulnerabilidade social. O órgão afirma que vai registrar manifestação formal sobre o caso.

Moradores das comunidades atingidas relatam que a madrugada de quarta (29.out) foi marcada pela retirada de corpos encontrados em áreas de mata e levados até a região da Praça São Lucas, na Penha. Para a Defensoria, esse movimento dos moradores — expor os corpos em via pública — foi uma tentativa de impedir que mortes ficassem fora do registro oficial. O governo estadual afirma que cada caso precisa ser periciado e que não é possível confirmar, neste momento, se todas essas mortes decorrem diretamente do confronto da operação.

O BR104 mantém o espaço aberto para posicionamento do Governo do Estado do Rio de Janeiro, da Secretaria de Estado de Polícia Militar, da Secretaria de Estado de Polícia Civil, do Ministério Público do Rio de Janeiro e do governador Cláudio Castro.

A reportagem também solicitou atualização do balanço oficial de mortos, com identificação formal, e aguarda resposta. As informações desta matéria têm como base dados divulgados pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, manifestações públicas da Defensoria Pública da União, declarações do governo estadual e do Ministério Público do Rio de Janeiro, além de relatos de moradores registrados pelas autoridades de fiscalização. Solicitações de correção ou direito de resposta podem ser enviadas ao canal oficial de contato da redação.