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Moraes pede que a PGR investigue a operação no Rio já encerrada, diz STF

Megaoperação policial no Rio terminou com ao menos 64 mortos, incluindo quatro policiais, segundo o governo estadual.

Alexandre de Moraes | @ Crédito: Gustavo Moreno/STF
Alexandre de Moraes | @ Crédito: Gustavo Moreno/STF

O governo do Estado do Rio de Janeiro informou que a megaoperação policial realizada em 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital, terminou após mais de 12 horas de confronto armado.

Segundo o balanço oficial, ao menos 64 pessoas morreram, incluindo quatro policiais, e mais de 80 suspeitos foram presos. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou que a Procuradoria-Geral da República analise a ação e peça informações sobre os procedimentos adotados.

O governo do Rio de Janeiro afirma que cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar participaram, na terça-feira (28 de outubro de 2025), de uma ofensiva batizada de “Operação Contenção”, com alvos em ao menos 26 comunidades ligadas aos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio.

A ação mirava, segundo as autoridades estaduais, núcleos do Comando Vermelho e suspeitos apontados como lideranças do tráfico. A operação foi encerrada ainda na noite de terça-feira, após confrontos que duraram mais de 12 horas.

De acordo com o governo estadual, o balanço preliminar após o término da ação é de pelo menos 64 mortos. Entre as vítimas estão quatro agentes de segurança — dois policiais civis e dois policiais militares de unidades especiais — e dezenas de suspeitos classificados pelo Estado como integrantes armados da facção. Mais de 80 prisões foram registradas, além da apreensão de rifles de guerra, granadas, drones e grande volume de drogas.

Após o fim da operação, grupos de direitos humanos e moradores relataram retirada de corpos em áreas de mata próximas às comunidades e afirmam que o número real de mortos pode ser maior que o informado oficialmente. Há relatos de moradores sobre corpos deixados em praças e levados depois por equipes de resgate. Essas alegações ainda estão sob checagem e serão alvo de apuração formal.

Por que essa operação chamou tanta atenção

O total de mortos informado até agora faz essa ação ser tratada como a mais letal da história recente do Rio de Janeiro, superando episódios anteriores como a operação no Jacarezinho, em 2021, e outras incursões de alta letalidade na Penha e na Vila Cruzeiro.

Organizações civis, lideranças comunitárias e parte da classe política passaram a se referir ao episódio como “chacina” e “guerra no Rio”, termos que passaram a aparecer nas buscas mais feitas pelos moradores e pelo restante do país, como “o que está acontecendo no Rio de Janeiro”, “quantos mortos no Rio hoje”, “guerra no RJ” e “situação no Rio agora”.

O governo estadual descreve a operação como necessária para “conter o avanço territorial do crime organizado” e afirma que quadrilhas ligadas ao Comando Vermelho estariam usando a Penha e o Alemão como base logística, impondo bloqueios em vias, ameaçando moradores e atacando policiais com armamento pesado e drones adaptados para lançar explosivos. Segundo essa versão, os confrontos foram consequência direta da reação armada do grupo.

Já críticos da ação — incluindo entidades de direitos humanos, Defensoria e setores do Ministério Público Federal — afirmam que o resultado final, com dezenas de mortos em poucas horas, indica uso excessivo e descontrolado da força pelo Estado em áreas densamente povoadas e majoritariamente pobres e negras. Para esses grupos, a resposta policial pode configurar violação de decisões já existentes do Supremo Tribunal Federal que limitam operações letais em favelas.

O que dizem as autoridades estaduais

O governador Cláudio Castro classificou os confrontos como resultado de “narco-terrorismo” e afirmou que a operação visou lideranças e estruturas armadas do Comando Vermelho. O governo do estado divulgou imagens de armas, fuzis e munição pesada apreendidos e ressaltou que quatro agentes de segurança morreram “em serviço”, o que teria exigido reforço de todo o efetivo em alerta.

Integrantes da cúpula de segurança dizem que havia mandados de prisão e ordens judiciais para captura de suspeitos de tráfico e homicídio, e que os alvos eram investigados havia meses. Segundo a Polícia Civil, parte dos presos seria ligada a células interestaduais do crime.

O governo afirma que a operação terminou com “significativa desarticulação logística da facção”, mas não informou, até a última atualização, quantos dos principais alvos apontados como chefes regionais foram de fato detidos.

A reportagem pediu posicionamento sobre protocolos de preservação de cena de crime, perícia independente e identificação dos mortos. Até agora, o governo estadual tem reiterado que os óbitos ocorreram “em confronto armado” e que a apreensão de armamento pesado comprova “alto poder bélico dos criminosos”.

A cobrança do STF e da PGR após o fim da operação

Com o término da ação, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), assumiu temporariamente a relatoria da ADPF 635 — conhecida como “ADPF das Favelas”, que estabelece parâmetros para operações policiais em comunidades do Rio.

Moraes determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste, em caráter urgente, sobre a megaoperação e sobre eventuais descumprimentos dessas regras de controle de letalidade.

A ADPF 635, que já foi usada pelo STF para exigir protocolos como ambulâncias de prontidão, registro de atuação policial, preservação de provas e comunicação imediata ao Ministério Público, segue em vigor. A cobrança agora é para saber se esses protocolos foram obedecidos durante a operação encerrada na noite de terça-feira.

O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União também enviaram ofícios ao governador Cláudio Castro pedindo detalhes sobre a ação.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, reconheceu que o número de mortos inclui civis e afirmou que o governo federal acompanha o caso. Ele também questionou, publicamente, a falta de coordenação prévia entre o governo estadual e a esfera federal antes de uma operação dessa escala.

E agora: há risco de novas ações?

Após o encerramento da megaoperação, a Secretaria de Segurança Pública do estado informou que mantém policiamento reforçado nos acessos aos complexos da Penha e do Alemão, inclusive na Avenida Brasil e em corredores de ligação com a Linha Amarela, para evitar retaliações de facções e bloquear novos incêndios de ônibus ou barricadas.

A orientação oficial é que moradores acompanhem os avisos de trânsito e segurança emitidos pelo governo estadual e pela prefeitura, especialmente em horários de pico.

A prefeitura do Rio monitora o impacto sobre serviços urbanos e trânsito por meio do Centro de Operações Rio, que costuma acionar estágios de atenção (“Estágio 2” e “Estágio 4”) quando há risco à circulação, bloqueio de vias ou tiroteio prolongado. No fim da noite, parte das vias principais havia sido reaberta e escolas e unidades de saúde estavam em avaliação para retomar o atendimento.

Moradores continuam relatando medo de circular em áreas próximas às comunidades e reclamam da possibilidade de novas incursões. Entidades de direitos humanos pedem que eventuais novas ações passem primeiro por plano transparente de garantia de vida de civis e de agentes de segurança. Já o governo estadual insiste que continuará “ocupando território” para impedir que o Comando Vermelho reorganize o fluxo de armas e drogas.

O BR104 solicitou posicionamento do governo do Estado do Rio de Janeiro, da Polícia Civil, da Polícia Militar, da Prefeitura do Rio e do Ministério Público Federal sobre os procedimentos adotados durante e após a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão.

As autoridades estaduais afirmam que a ação cumpriu mandados de prisão e apreendeu armamento de uso restrito. Entidades de direitos humanos e órgãos de controle cobram perícia independente e responsabilização nos casos de morte.

As informações citadas nesta reportagem têm base em dados divulgados pelo governo estadual, comunicados das polícias Civil e Militar, notas do Ministério Público Federal e manifestações do Supremo Tribunal Federal.

Solicitações de correção ou direito de resposta podem ser enviadas para contato@br104.com.br