A experiência de ser mãe no Brasil não é igual para todas as mulheres. Uma pesquisa recente divulgada por instituições de saúde e universidades federais revelou que mulheres negras continuam enfrentando barreiras silenciosas, tanto durante o pré-natal quanto após o parto, além de obstáculos adicionais para permanecer no mercado de trabalho.
Os dados reforçam disparidades históricas e mostram que, apesar de avanços no debate racial, ainda existem dificuldades estruturais que afetam diretamente a maternidade negra.
O estudo aponta que mulheres negras têm maior probabilidade de sofrer violência obstétrica, enfrentar atrasos em atendimentos no SUS e receber menos informações sobre procedimentos médicos. Além disso, ocupam, proporcionalmente, mais postos informais no mercado de trabalho, o que afeta diretamente o acesso à licença-maternidade remunerada e à estabilidade profissional.
Desigualdade começa no pré-natal
De acordo com a pesquisa, mulheres negras chegam mais tarde ao pré-natal e, muitas vezes, recebem orientações incompletas sobre riscos, exames e acompanhamento especializado. Especialistas afirmam que a desigualdade não está apenas em indicadores socioeconômicos, mas também na forma como essas mulheres são tratadas dentro da rede pública.
Em muitos casos, relatos de dor, desconforto ou sintomas graves não recebem a mesma atenção direcionada a gestantes brancas. Pesquisadoras chamam isso de “naturalização da resistência física da mulher negra”, uma percepção equivocada que atravessa gerações e impacta diretamente o atendimento médico.
No ciclo gestacional, o tempo de espera também tende a ser maior. Profissionais que participaram do estudo relataram que, em algumas regiões, a estrutura de atendimento sofre com falta de profissionais, mas afirmam que há padrões de diferença na forma como pacientes são acolhidas.

Gravida negra – @Reprodução
Riscos e mortalidade materna
O levantamento também mostra que mulheres negras apresentam maior risco de morte durante a gestação e o pós-parto. As causas mais frequentes incluem hipertensão, hemorragias e infecções, condições que, quando identificadas precocemente, têm alto índice de prevenção.
Pesquisadores destacam que o problema não está relacionado a fatores biológicos, mas sim a elementos sociais, econômicos e institucionais. A falta de acesso regular ao pré-natal, o atendimento fragmentado e a precariedade dos serviços de saúde em algumas regiões do país criam um cenário de vulnerabilidade.
Obstáculos no mercado de trabalho
Outro ponto levantado pelo estudo envolve o impacto da maternidade na vida profissional. Mulheres negras representam parcela significativa das trabalhadoras informais, muitas delas sem carteira assinada e, portanto, sem licença-maternidade ou estabilidade após o retorno ao trabalho.
A consequência é direta: após o nascimento dos filhos, a taxa de saída dessas mulheres do mercado é maior. Isso contribui não apenas para a desigualdade de renda, mas também para um ciclo de vulnerabilidade econômica que se estende por anos.
As entrevistadas relatam dificuldade de conseguir reajustar horários, negociar home office ou retornar a postos com a mesma remuneração. Em cargos formais, o medo de sofrer represálias após a gestação também aparece como fator de insegurança.
Por que os desafios permanecem invisíveis?
Especialistas ouvidos pela pesquisa afirmam que a maternidade negra convive com camadas de invisibilidade histórica. Segundo a psicóloga social Ana Luiza Medeiros, esse fenômeno ocorre porque a sociedade tende a naturalizar a força física e emocional da mulher negra, criando uma falsa percepção de que ela “aguenta mais”.
“A ideia de que mulheres negras são mais fortes e resistentes faz com que seus relatos de dor sejam tratados com menor urgência. Isso aparece tanto no SUS quanto no ambiente de trabalho. É um estereótipo perigoso que gera sofrimento real”, explica.
A socióloga Renata França, que estuda desigualdade racial e gênero, afirma que parte da sociedade ainda tem dificuldade de reconhecer a especificidade das experiências vividas por mulheres negras.
“Quando falamos de maternidade, muitas pessoas imaginam um cenário universal. Mas, para mulheres negras, a maternidade é atravessada por racismo estrutural, desigualdade de renda e dificuldades institucionais. Por isso muitos desafios passam despercebidos por quem não vive essa realidade”, comenta.
Pesquisadores também apontam que a percepção sobre maternidade negra se mistura a estigmas sociais antigos. Mulheres negras são, historicamente, associadas ao cuidado — como babás, empregadas domésticas e cuidadoras — o que reforça a ideia de que elas devem lidar naturalmente com todas as demandas familiares, mesmo sem apoio adequado do Estado e do mercado.
Caminhos para mudança
O estudo recomenda ampliar políticas de cuidado à gestante, com foco específico nas desigualdades raciais. Entre as medidas sugeridas estão:
- aumento da presença de doulas e enfermeiras obstétricas em hospitais públicos;
- capacitação contínua de equipes para reduzir vieses raciais;
- criação de programas que facilitem o acesso ao pré-natal;
- ampliação do apoio às mães que precisam retornar ao trabalho.
Instituições defendem também o fortalecimento da política de equidade racial no SUS e a ampliação de programas que deem suporte à renda de mães em situação de vulnerabilidade.
De acordo com especialistas, reconhecer a desigualdade é o primeiro passo para enfrentá-la. A maternidade negra carrega histórias de cuidado, força e resistência, mas também de desafios que ainda precisam ser enfrentados com políticas públicas e atenção social.
