Um caso raro registrado no distrito de Nova Conquista, zona rural de Vilhena, chamou atenção de moradores e repercutiu em portais de todo o país nesta semana. Um filhote de gato nasceu com apenas um olho aparente na região central do rosto e sem o focinho formado de maneira usual. O animal fazia parte de uma ninhada de três filhotes e morreu poucas horas após o nascimento, com dificuldade para respirar e se alimentar.
Imagens feitas pela família responsável pelo animal — divulgadas para afastar suspeitas de montagem — mostram o filhote com a alteração evidente na face. A mãe, uma gata adulta que já havia tido outras crias consideradas normais, recebeu cuidados após o parto e segue em bom estado, assim como os demais filhotes sobreviventes.
Profissionais consultados classificam o caso como compatível com ciclopia, uma malformação congênita grave descrita em animais e seres humanos, que integra o espectro da holoprosencefalia, quando não há divisão adequada de estruturas da parte anterior do cérebro e da face. A condição é considerada letal na imensa maioria dos registros.
Segundo veterinários, a repercussão nas redes e a curiosidade do público tornam necessário explicar o fenômeno em termos científicos, afastando interpretações místicas, teorias conspiratórias e desinformação.
O que se sabe sobre o caso em Rondônia
De acordo com o relato do tutor, o filhote nasceu junto a outros dois gatinhos aparentemente saudáveis, em uma propriedade na região de Nova Conquista. Pouco depois do parto, a família percebeu que um dos animais tinha apenas um olho visível e apresentava grande dificuldade para respirar.
Sem focinho funcional e com alterações importantes na região da boca, o filhote não conseguia mamar normalmente. Ele morreu ainda no mesmo dia, quadro considerado esperado por especialistas, já que a ciclopia costuma vir acompanhada de comprometimento de vias aéreas, sistema nervoso central e outros órgãos vitais.
A mãe do filhote, segundo o tutor, já teve outras ninhadas ao longo dos anos, sem qualquer registro semelhante. A ausência de histórico prévio reforça a avaliação de que se trata de um evento isolado e extremamente raro.
O que é ciclopia, segundo a ciência
A ciclopia é uma anomalia congênita rara, descrita na medicina veterinária e humana como uma das apresentações mais graves da holoprosencefalia. Nesse quadro, falhas muito precoces no desenvolvimento embrionário impedem a separação completa do prosencéfalo (porção anterior do cérebro) e das estruturas da linha média da face.
Em vez de duas órbitas bem definidas, o animal pode apresentar um único campo ocular ou olhos fusionados, geralmente associado à ausência de nariz funcional e a outras alterações faciais e neurológicas. Na prática, isso compromete respiração, alimentação e funções vitais, o que explica a baixa viabilidade de filhotes com o problema.
Estudos citados por especialistas apontam que a ciclopia está associada a:
- alterações genéticas e cromossômicas;
- falhas na sinalização de genes envolvidos na formação da cabeça e do cérebro;
- possíveis fatores ambientais durante a gestação, como exposição a substâncias tóxicas ou medicamentos teratogênicos em momentos críticos do desenvolvimento.
No entanto, na maioria dos casos isolados, não se consegue determinar um único fator causal. E, no episódio de Rondônia, não há laudo laboratorial ou investigação específica que permita apontar com segurança qualquer agente externo como responsável pela malformação.
Há risco para outros animais ou para humanos?
Veterinários ouvidos pela reportagem ressaltam que a ciclopia não é uma doença contagiosa.
“Estamos falando de uma malformação congênita grave, que acontece na fase inicial de formação do embrião. Não é vírus, não é bactéria, não é algo que ‘passa’ para outros animais ou pessoas”, explica uma médica-veterinária consultada pelo BR104, especializada em clínica de pequenos animais.
Ela reforça que, em situações como a registrada em Vilhena, os demais filhotes podem levar vida normal, desde que saudáveis, e a fêmea deve seguir em acompanhamento básico, com vacinação, vermifugação e, se possível, esterilização para evitar gestações indesejadas.
“É compreensível que a população se assuste ao ver imagens de um animal com essa aparência diferente, mas é importante afastar o sensacionalismo. O mais provável é que seja um evento isolado e sem implicação para a saúde pública”, completa.
É possível dizer que algo na região causou o problema?
Até o momento, não.
Especialistas ouvidos afirmam que qualquer tentativa de associar o caso a agrotóxicos específicos, tipo de ração, água da região ou outros fatores locais, sem exame detalhado, é especulação. Para sugerir uma ligação direta, seria necessário:
- histórico reprodutivo com repetição de casos na mesma área;
- investigação clínica e laboratorial das matrizes;
- análise ambiental sistemática.
“Um único caso, sem padrão repetido, aponta muito mais para um acidente biológico raro do desenvolvimento do que para uma causa ambiental comprovada”, resume outra veterinária consultada.
Pesquisas internacionais indicam que, mesmo quando se identificam fatores ambientais associados à ciclopia em rebanhos ou populações específicas, isso ocorre em cenários de exposição intensa e bem documentada, o que não foi apresentado no episódio de Nova Conquista.
