O episódio em que um adolescente de 14 anos encontrou um pedaço de dedo humano dentro de uma esfiha pedida por delivery, em São Paulo, vai muito além do espanto e das manchetes. Ele escancara um problema mais profundo: a falta de controle sanitário e de protocolos de segurança nas cozinhas que atendem o mercado de delivery — um dos setores que mais cresceram no país nos últimos anos.
A ocorrência foi registrada na zona norte da capital. Segundo a apuração das autoridades, o cozinheiro de 55 anos sofreu a amputação parcial de um dedo ao utilizar um equipamento para fatiar calabresa. O acidente aconteceu durante o expediente, e, mesmo com o socorro imediato, o fragmento do dedo acabou sendo processado junto aos alimentos.
O incidente só foi descoberto quando o jovem, ao abrir o pedido, encontrou o pedaço humano no salgado. O caso foi encaminhado à Polícia Civil, e os alimentos do local foram recolhidos para perícia. A lanchonete permanece interditada pela Vigilância Sanitária.
Para especialistas, o episódio não deve ser tratado como um acidente isolado, mas como um alerta para o setor de alimentação fora do lar. A ausência de monitoramento rigoroso, treinamento adequado e equipamentos de segurança mínimos transforma cozinhas em potenciais focos de contaminação e risco biológico.
“Essas cozinhas operam sob pressão, com volume alto de pedidos e pouca estrutura de controle. Um erro humano vira um desastre sanitário”, explica um consultor em segurança alimentar ouvido pela reportagem.
Dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostram que mais de 70% dos estabelecimentos de pequeno porte em São Paulo atuam com sistemas de delivery, mas menos de 40% possuem plano formal de segurança de alimentos.
O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) confirmou que o adolescente foi indenizado, mas reforçou que o caso expõe uma vulnerabilidade que precisa ser tratada com política pública, não apenas com punições pontuais.
Enquanto a investigação segue, o episódio serve de alerta para um país em que o delivery virou hábito cotidiano — mas ainda carece de vigilância à altura da demanda.
