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Amazônia teve em 2024 a pior temporada de queimadas da história, aponta relatório global

De acordo com o relatório, as queimadas sul-americanas representaram cerca de um terço de todo o excesso de CO₂ liberado no planeta

Vista aérea da Amazônia em chamas com espessa fumaça sobre o rio, céu alaranjado e contraste entre floresta verde e áreas queimadas | Foto: Reprodução
Vista aérea da Amazônia em chamas com espessa fumaça sobre o rio, céu alaranjado e contraste entre floresta verde e áreas queimadas | Foto: Reprodução

A Amazônia enfrentou em 2024 sua pior temporada de queimadas da história recente, segundo o relatório internacional State of Wildfires 2024–2025, publicado por uma coalizão de mais de 60 instituições científicas de 20 países.
O estudo revela que a área queimada na região foi 332% superior à média histórica, o que representa quatro vezes mais destruição que o normal desde que os registros começaram, em 2002.

As queimadas concentraram-se principalmente no norte do Brasil, abrangendo os estados de Roraima, Amazonas e Pará, além de áreas da Guiana, Suriname e Venezuela. O relatório alerta que 2024 se tornou um marco trágico na história ambiental da Amazônia, com o fogo atingindo inclusive regiões consideradas florestas úmidas — que historicamente eram menos suscetíveis às chamas.

O levantamento indica que cerca de 60% de toda a perda florestal registrada na Amazônia em 2024 teve origem no fogo, o maior índice desde 2016.
O número de focos de incêndio foi 52% superior à média das últimas duas décadas, e o fogo se espalhou rapidamente por áreas de transição entre savanas e florestas, especialmente em Roraima e no norte do Pará.

A situação afetou comunidades indígenas e rurais, que enfrentaram falta de água potável e ar poluído por semanas consecutivas. O relatório cita que 70 mil pessoas sofreram restrições no acesso à água limpa durante o pico da seca, enquanto os níveis de fumaça ultrapassaram até 13 vezes os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os pesquisadores apontam as mudanças climáticas e o fenômeno El Niño de 2023–2024 como principais responsáveis pela seca severa e pelas temperaturas recordes que criaram o cenário ideal para os incêndios.
Segundo o relatório, eventos extremos como o de 2024 tornaram-se até 70 vezes mais prováveis devido à influência humana no clima.

“O que vimos na Amazônia em 2024 é o retrato do impacto direto do aquecimento global em ecossistemas vitais. As florestas estão secando, e o fogo está avançando onde antes ele não existia”, afirmou o pesquisador Dr. Douglas Kelley, coautor do estudo e cientista do UK Centre for Ecology & Hydrology.

O documento será um dos principais destaques da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP30), que acontece em novembro de 2025, em Belém (PA).
Os cientistas pedem que o Brasil coloque a crise do fogo na Amazônia no centro das negociações, destacando que o país “vive hoje o impacto mais severo das mudanças climáticas nas florestas tropicais do planeta”.

Eles defendem investimentos em prevenção, manejo sustentável, restauração e sistemas de alerta precoce, combinados a políticas de combate ao desmatamento e controle de queimadas ilegais.

“Sem ação urgente, eventos como o de 2024 deixarão de ser exceção e passarão a ser regra”, alertou a cientista Drª Liana Anderson, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Os incêndios de 2024 na Amazônia contribuíram de forma significativa para o aumento global das emissões de carbono.
De acordo com o relatório, as queimadas sul-americanas representaram cerca de um terço de todo o excesso de CO₂ liberado no planeta naquele ano — o suficiente para superar as emissões anuais de mais de 200 países juntos.

A degradação da floresta também ameaça o equilíbrio climático global, reduzindo a capacidade de absorção de carbono e agravando o aquecimento da Terra.
Especialistas alertam que sem um plano de restauração e monitoramento eficaz, parte da Amazônia pode entrar em colapso ecológico nas próximas décadas.