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Cristhenes Fabiane

Alagoana, socióloga e feminista.

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Possui graduação em ciências sociais pela UFAL, mestre e doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais na UFCG, seus escritos e estudos se dedicam a compreensão das relações e fenômenos sociais, como a violência, gênero e política.


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Saúde mental e sociedade contemporânea

A depressão, enquanto doença, não é apenas um problema de saúde mental, mas está ligada ao excesso de atribuições, cansaço, desânimo, frustração e traumas, frutos também do retrato de uma sociedade adoecida pelo individualismo.

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Ilustração mulher com mão na cabeça | © Reprodução

Saúde mental é um tema amplo, complexo e multidisciplinar, seja na área da psicologia, sociologia ou até mesmo das políticas públicas de assistência e acolhimento a indivíduos que apresentam algum tipo de adoecimento mental. Mas qual é a ligação desse assunto com as relações e os modelos sociais que vivemos?

No Brasil, desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organizam nacionalmente o Setembro Amarelo, com o objetivo de informar, prevenir e assim tentar reduzir os casos.

De acordo com dados consultados [1], são registrados mais de 13 mil suicídios no país, e cerca de 96,8% dos casos estavam relacionados a transtornos mentais. O Brasil lidera mundialmente a presença de pessoas com transtorno de ansiedade, é o 4º em casos de depressão e registra significativo aumento nas taxas de suicídio.

Convergindo com essa afirmação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que os transtornos mentais como depressão, abuso de álcool, transtorno bipolar e esquizofrenia, se encontram entre as 20 principais causas de incapacidade. A estimativa é que 350 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, e as previsões indicam que até 2030 ela será a doença mais frequente do planeta.

Pesquisas realizadas por Santos e Siqueira [2] analisaram estudos sobre a prevalência de transtornos mentais na população adulta brasileira e verificaram que as taxas variam de 20% a 56%. Os transtornos mais prevalentes e indicados nos estudos são os de ansiedade, humor e abuso de álcool. Outro ponto que deve ser levado em consideração, é a análise da relação entre sofrimento/adoecimento psíquico e condições de vida e trabalho e contexto social.

Assim, os transtornos mentais precisam ser compreendidos para além de uma perspectiva biologista, devendo serem atrelados ao contexto sociocultural em que se inserem os indivíduos em sua análise.

Nas Ciências Sociais, no estudo sobre o suicídio de Émile Durkheim (1897) é problematizado as formas de integração social nas sociedades ditas complexas e de trabalho especializado, fazendo referência com a qualidade dos vínculos psicoativos entre os indivíduos e contextualizando-os em cenários políticos, econômicos, culturais e históricos específicos. [3]

Explicitando em termos práticos, temos a produção capitalista, baseada no acumulo de riquezas, busca de sucesso profissional, ampliação das desigualdades, ainda mais em tempo de crise mundial, como a pandemia da COVID-19. A saúde mental piorou para 53% dos brasileiros sob pandemia, aponta pesquisa. [4]

Outras aspectos como a corrida pela a vida “perfeita” vista nas redes sociais, como a realidade inalcançável, os ataques racistas, homofóbicos e misóginos, a falta de instabilidade financeira, o desemprego, a busca por atingir padrões aceitáveis também são levados em conta. É claro que cada pessoa possui sua história de vida, contendo suas especificidades, mas o que eu pretendo alertar, são para os vários componentes que estão presentes no contexto do adoecimento mental.

Dito isto, os problemas de saúde mental não se tratam apenas de uma questão de saúde, eles afetam todas as dimensões do desenvolvimento da sociedade, mantendo relação com a pobreza, o preconceito, a discriminação e a violação de direitos humanos.

Quando falamos em adoecimento mental, essa pauta, em geral, vem acompanhada de grande falta de conhecimento, tanto pela pessoa que sofre com a doença quanto para o círculo de pessoas que estão no seu convívio, no tocante a toda uma estrutura de conhecimento, acolhimento e tratamento. Quem nunca ouviu as frases “não vou ao psicólogo/psiquiatra, não sou louco!”, “remédios de doido”, “isso não é doença, é falta de Deus”? A lista preconceitos é enorme.

Na História social, vemos autores como Foucault. Em seu livro A História da Loucura, o autor francês retrata o estigma da doença na Idade Média, com a construção de espaços como os manicômios, que se transformaram em locais de exclusão social. Os “loucos” eram vistos como possuídos pelo demônio, através de um modelo de compreensão que atribuía a loucura a forças sobrenaturais (míticas ou religiosas). Somente a partir do século XVIII, isso passou a ser visto como doença.

A depressão, enquanto doença, não é apenas um problema de saúde mental, mas está ligada ao excesso de atribuições, cansaço, desânimo, frustração e traumas, frutos também do retrato de uma sociedade adoecida pelo individualismo e pelas oportunidades reais de avanço.

No Brasil, em termos de assistência, ainda são grandes os desafios, que comprometem seriamente a reabilitação do paciente, que passa pela falta de profissionais especializados, uma rede multidisciplinar, tratamento acessível, barateamento dos medicamentos utilizados, terapias, tratamento humanizado, enfim. É necessário maior investimento e atenção para o desenvolvimento de políticas públicas que ajudem as pessoas a terem acesso e informações adequadas para o tratamento da doença.

Quando se fala em relações sociais, a empatia, escuta afetiva e acolhimento fazem a diferença. Neste contexto, a terapia preventiva afeta de forma positiva as pessoas em busca de um bem estar da coletividade. Sendo assim, a saúde mental se torna cada vez mais importante em um mundo cheio de desafios e desigualdades.

Particularmente, convivo com a depressão e a ansiedade há três anos, e posso afirmar que não é algo fácil de lidar, falar e principalmente tratar, visto que os medicamentos (quando necessários), a terapia e o acesso a toda uma rede de apoio não é acessível financeiramente, o que afeta a produtividade, a visão de mundo, as relações sociais, noções sobre presente e futuro. Então, falar em adoecimento mental é falar sobre a vida em sociedade, não é um “ problema” individual, mas também social.

 

[1] https://www.setembroamarelo.com/

[2] Santos EG, Siqueira MM. Prevalência dos transtornos mentais na população adulta brasileira: uma revisão sistemática de 1997 a 2009. J Bras Psiquiatr. 2010 59(3):238-246.

[3] https://www.scielo.br/j/se/a/NC6rcfx4YzLBKXWqHRCTnWh/?format=html

[4] https://www.bbc.com/portuguese/geral-56726583