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Cristhenes Fabiane

Alagoana, socióloga e feminista.

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Possui graduação em ciências sociais pela UFAL, mestre e doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais na UFCG, seus escritos e estudos se dedicam a compreensão das relações e fenômenos sociais, como a violência, gênero e política.

Ser mulher em tempos de pandemia

Neste contexto, as mulheres, principalmente negras e pobres, se tornaram um dos grupos mais vulneráveis a sofrer os impactos da pandemia.

Publicado em: 21/05/21 às 8:06 | Atualizado em 21/05/2021 09:24


Mulher negra usando máscara - © Reprodução
Mulher negra usando máscara - © Reprodução

A pandemia da Covid-19 se apresentou em 2020 como uma ameaça biológica que surpreendeu o mundo. Doença provocada pelo Sars-Cov-2, ela tem causado apreensão nos cientistas ao redor do mundo, por ser um patógeno altamente contagioso, e que tem causado um grande número de infecções e óbitos, alcançando um patamar de mais de 3 milhões de mortes no mundo, segundo os dados oficiais da Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Brasil teve o seu primeiro caso confirmado de morte pela doença em 17 de março de 2020. A vítima era uma mulher negra e idosa de 62 anos, com histórico de diabete. Este caso coincide com o fim do Carnaval, festa popular brasileira que reúne milhares de pessoas em diversas cidades do país, inclusive turistas de todo o mundo.

O cenário mundial marcado pela pandemia obrigou a sociedade global a adaptar-se às novas regras de conduta social, impondo o uso de acessórios como máscaras e luvas em locais públicos, higienização constante das mãos com álcool em gel, além de banir todo o tipo de aglomerações de pessoas, com o distanciamento social.

A nova realidade imposta apenas reforçou a exposição das graves violações dos direitos mais básicos, sofridos por grande parte da população mundial, como o acesso ao saneamento básico, à habitação, saúde, alimentação, educação e ao trabalho, demonstrando ainda as relações históricas de desigualdade entre as classes e os gêneros.

Os primeiros sinais da pandemia no Brasil foram subestimados pelas autoridades políticas, e mesmo com a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) alertando sobre a gravidade da situação, o então presidente da república Jair Messias Bolsonaro tratou o fenômeno com irresponsabilidade, negacionismo e negligência.

Desde então, nos deparamos com a falta de um plano de ação concreto para conter o avanço da doença, falta de diplomacia e vontade política por parte do governo federal. Enquanto outros representantes políticos estavam empenhados, em busca de um possível remédio ou desenvolvimento e aquisição de vacinas, o Brasil permanecia com um discurso que negava a gravidade da doença e estimulava a promessa de falsos medicamentos para a Covid.

Essa postura contribuiu para que em 17 de maio de 2021, o Brasil contabilizasse 436.862 óbitos e 15.661.106 casos, com média de 1.039 mortes pelo novo coronavírus nas últimas 24 horas, segundo o balanço do consórcio de veículos de imprensa, com informações das secretarias de Saúde.

Obviamente, o mundo inteiro está sendo afetado pelas consequências da pandemia, porém alguns grupos sociais estão mais propensos a sofrerem os impactos, visto que, historicamente, levam consigo um histórico de esquecimento e negação dos seus direitos sociais e das suas necessidades mais vitais, como o acesso aos cuidados de saúde.

Ao realizar um breve recorte de classes sociais e raças, uma pesquisa realizada em São Paulo (2020) concluiu que:

“A doença está espalhada por toda a cidade, mas a diferença de contágio aparece quando São Paulo é dividida por renda. Os infectados são 6,5% da população nos bairros centrais e mais ricos e 16% nos bairros da periferia mais pobre. O novo coronavírus atingiu 5% das pessoas com nível superior de ensino e quase 23% daqueles que não completaram o fundamental. Os brancos foram menos atingidos: 7,9% dos infectados; já entre os pretos o número salta para 19,7%”. Isso demonstra que as crises, sejam elas de qual ordem for, afeta de forma mais avassaladora as minorias em igualdade e direitos.

Neste contexto, as mulheres, principalmente negras e pobres, se tornaram um dos grupos mais vulneráveis a sofrer os impactos da pandemia, pois se viram desprovidas economicamente e mais expostas às situações de violência doméstica, em consequência do isolamento social.

No campo de trabalho, os maiores impactos foram sentidos pelas trabalhadoras domésticas, diaristas, cuidadoras e trabalhadoras informais. Quando as primeiras medidas de isolamento social começaram a serem adotadas em todo o país, como forma de evitar o contágio pelo novo coronavírus, grande parte dessas mulheres foram dispensadas de suas ocupações, sem nenhuma garantia formal de remuneração.

Analisando esse fator, do ponto de vista dos direitos trabalhistas, as trabalhadoras domésticas, em sua maioria, sofrem com a falta de garantias legais em tempos de crise. Essa problemática é apresentada no livro “A precarização tem rosto de mulher: A luta das trabalhadores e trabalhadores terceirizados da USP”, de Diana Assunção. Segundo a autora, isso deve servir para se pensar a questão atual da precarização e da terceirização do trabalho. Combina-se a isso uma forma já conquistada de divisão da classe trabalhadora, utilizada pela burguesia, que é a opressão e a violência às mulheres.

Historicamente, as mulheres foram educadas e designadas para uma carga maior de cuidados e, segundo as pesquisas relacionadas ao tema, realizam em média três vezes mais trabalhos não remunerados do que os homens em casa – e isto mesmo antes da transmissão da COVID-19, o que escancara uma das faces da desigualdade entre homens e mulheres na sociedade.

Diante da crise econômica, caberia aos governantes a criação de mecanismos de auxílios voltados para as mulheres que estariam impossibilitadas de desenvolver as suas atividades profissionais. No caso do Brasil, como resposta à pressão dos trabalhadores desempregados e informais, diante da crise econômica provocada pela suspensão das atividades, foi criado um suporte financeiro, em caráter de um auxílio emergencial aos mais de 12 milhões de trabalhadores e trabalhadoras que estivessem fora do mercado de trabalho – auxílio este que já passou por diversos ajustes e que não supre as necessidades básicas de uma família.

Outro aspecto a ser citado é a participação das mulheres na linha de frente no enfrentamento à Covid 19. Essas profissionais estão em constante exposição ao vírus por trabalharem em ambientes altamente contaminados, como postos de saúde e hospitais. E, além de assumirem jornadas de trabalho, precisam oferecer cuidados aos seus familiares.

Ao me debruçar sobre as questões de gênero e a violência contra a mulher no contexto da pandemia, minhas reflexões são iluminadas através da ideologia feminista, que me ajudam a pensar em um projeto social e político que garanta o empoderamento e a autonomia das mulheres. O debate de gênero traz consigo inquietações e questionamentos sobre práticas machistas, abusivas e desiguais, que são normalizadas na sociedade. Dentre elas, a violência.

O fenômeno da violência é algo complexo e heterogêneo, podendo se apresentar de múltiplas formas, seja material, física, simbólica, psicológica ou patrimonial, e pode acontecer em vários espaços sociais ou dentro das instituições, como a família e o Estado.

Alguns dados nos ajudam a refletir a cerca da violência contra a mulher nos dias de hoje. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinatos de mulheres.

Atualmente, as famílias estão sendo orientadas a manter o isolamento social, sob a recomendação do Ministério da Saúde e órgãos internacionais de saúde pública, como a OMS, no intuito de conter o avanço do novo coronavírus.

Vemos as mulheres como um dos principais grupos sociais que sofrem com as consequências da pandemia. De acordo com um estudo publicado em 09 de Julho de 2020, realizado por enfermeiras e obstetras brasileiras ligadas à Unesp, UFSCAR, IMIP e UFSC, de cada dez mulheres gestantes ou em estado puerpério que morreram no mundo em maio e junho de 2020, oito morreram no Brasil.

Notadamente, estamos enfrentando a mais grave crise epidemiológica já vivenciada no século 21, que tem modificado nossas vidas, rotinas, relações cotidianas e economia, e também tem exposto os problemas sociais e as desigualdades de classe, raça e gênero.

As desigualdades brasileiras existem e servem apenas como um pano de fundo para a nova situação trazida pelo novo coronavírus. Os desafios são muitos, e pensar na condição das mulheres em tempos de crise se faz necessário, uma vez que é preciso desenvolver, urgentemente, ações concretas que reforcem a igualdade de gênero, uma conquista que vem sendo construída historicamente em meio a tantas outras crises.

Frente a essa breve exposição, compreendo que as crises e os conflitos desencadeados e acentuados pela pandemia, revelaram a conjuntura ética e política que vem sendo vivenciada pelo Brasil nos últimos anos, fruto da falta de respeito pelos direitos humanos, da violência fomentada pelos discursos de ódio, principalmente daqueles que ocupam espaços de poder, marcados pelos numerosos casos de denúncias de corrupção ocorrida diariamente, o que detona a total ausência de responsabilidade do Estado em promover as garantias constitucionais em relação à vida e à igualdade entre os indivíduos.

Referências:

[1] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/05/17/brasil-volta-a-ter-aumento-na-media-movel-de-mortes-por-covid-com-1918-vitimas-por-dia-na-ultima-semana.ghtml

[2] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/07/01/levantamento-identifica-quais-grupos-sociais-estao-mais-propensos-a-covid-19.ghtml




Ser mulher em tempos de pandemia

Neste contexto, as mulheres, principalmente negras e pobres, se tornaram um dos grupos mais vulneráveis a sofrer os impactos da pandemia.

Há 4 semanas atrás | Cristhenes Fabiane