Adelino Angelo

O Palito de Picolé e o Governador

Publicado em: 25/11/19 às 9:57 | Atualizado em 25/11/2019 10:18


Governador Renan Filho, (de costas), Manoel Gomes de Barros (esq) Areski Freitas (dir) @BR104
Governador Renan Filho, (de costas), Manoel Gomes de Barros (esq) Areski Freitas (dir) @BR104

Começara a semana Nacional da Consciência Negra. A cidade de União dos Palmares amanhecera em alvoroço, pois, naquele dia 14, o Governador do estado de Alagoas estaria inaugurando pouco mais de uma légua de acesso a Serra da Barriga no melhor estilo participando da corrida “Descendo a Serra”, promovida pela Secretaria de Estado do Esporte, Lazer e Juventude (Selaj).

Além de demonstrar vitalidade e bom condicionamento físico, o jovem governante revelou incomum capacidade de articulação política ao reunir no mesmo palanque os principais concorrentes locais às eleições majoritárias previstas para 2020, alguns, inclusive, desafetos entre si.

O cortejo político nos faz reportar a uma história de paixão juvenil ocorrida no início da década de 80. Não se sabe ao certo se fora a voz melodiosa, com sotaque carioca, daquela bela morena de olhos verdes e cabelos longos encaracolados; Se fora a maneira educada com a qual tratava os que lhe cercavam, ou o conjunto de todos esses atributos, a causa de alguns rapazes serem atraídos à residência da família onde se hospedava a jovem.

Deslumbrado com tamanha beleza, Pedro – um dos admiradores da moça – fez uma confidência: “Estou apaixonado e preciso de ajuda para escrever uns versos, porque descobri que conquistei o coração dela. Dentre tantos, fui o escolhido”.

Beatriz, assediada por todos, estava plenamente convencida dos dotes naturais que possuía e da soberania que a magia feminina exerce sobre o sexo oposto.
Naqueles dias o fenômeno da internet ainda não havia chegado ao Brasil, talvez por esse motivo a garotada de então dispusesse de maior tempo para relacionamentos corpo a corpo, olhos nos olhos, “tête-à-tête”, utilizando-se dos recursos caneta/papel para expressar os sentimentos.

Era a geração “X” que brotava duma sociedade menos acelerada. Uma geração que vivenciava as transformações políticas e sociais, contudo sem dar cabo da real dimensão do que estava acontecendo.
Finalmente chega o dia de Beatriz retornar ao Rio de Janeiro.

A Rodoviária Povina Cavalcanti tornara-se o palco dos abraços e palavras de despedida. Pedro, diferente dos outros rapazes que ali estavam, nutria um misto de tristeza e felicidade.

Melancólico pela despedida, mas feliz pela convicção de ter sido o único a conquistar o coração da cobiçada jovem. A certeza fora ratificada ao receber um palito de picolé no qual estava escrito: “Eu escolhi você”. Ora, se havia alguma dúvida o escrito do palito a dissipou. Os abraços, e sussurros em pé de ouvido da rapaziada eram de nenhum significado.

Ali, no palito de picolé, estava grafada a prova da paixão correspondida.
Dia seguinte à partida de Beatriz, Pedro, não se contendo de tanta felicidade, compartilha com os amigos o segredo do Palito de Picolé, e, para sua triste surpresa, descobre que todos os amigos receberam Palitos de Picolé com a mesma dedicatória.

Decerto, não foram os olhos esverdeados ou o sotaque misto (brasiliense/alagoano) ou a retórica irrefutável do gestor das Alagoas, o ponto de atração que uniu adversários ocasionais sob o mesmo guarda-chuva político, mas sim a esperança de conseguir o apoio da máquina governamental para tentar convencer um eleitorado cada vez mais cético ante a escassez de políticas desenvolvimentistas para a região.

Ironicamente, o bordão da corrida (Descendo a Serra) torna-se sugestivo à situação de uma região que, em se falando de desenvolvimento, tem historicamente descido a serra, descido a ladeira, ou seja, “crescido para baixo como rabo de cavalo”.

Cortejado por alguns, ignorado por outros, o talentoso governador utiliza todos os meios possíveis para tentar reverter uma rejeição histórica na terra de zumbi, confirmada no último pleito eleitoral, no qual, apesar de concorrer sem adversário, obteve pouco mais de 19 mil votos num colégio eleitoral próximo a 40 mil.

Mesmo em face do desinteresse em instalar o IFAL no município; o descaso com a construção do matadouro público que há nove anos maltrata magarefes e põe em risco a saúde dos consumidores; a desconfiguração da unidade da Secretaria da Fazenda; a retirada dos exames de motorista do município centro regional, dentre outros, o astuto político foca na construção de uma Estação Rodoviária, priorizando o turismo, que, a bem da verdade, é de suma importância para a economia regional

É nesse contexto cultural, econômico e político que a corrida eleitoral se inicia nos bastidores. Os esforços são para conquistar a atenção do “Calheiros”. Quem dos principais postulantes à prefeitura conseguirá? Há quem diga que o sagaz gestor joga com vários dados. Ou seria com vários Palitos de Picolé?



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