Adelino Angelo

À esquerda ou À direita

Publicado em: 01/11/19 às 14:29 | Atualizado em 04/11/2019 11:12


Desde os primórdios, Abraão, patriarca das principais religiões monoteístas do planeta – Judaísmo, Islamismo e Cristianismo – já se via obrigado a tomar a decisão de separar-se de seu sobrinho Ló para evitar conflitos, os quais surgiram entre seus empregados a partir do aumento dos rebanhos de cada um deles, e não haver pastagem suficiente para alimentar os animais. Diz o relato: “Aí está à terra inteira diante de você.

Vamos nos separar! Se você for para a esquerda, irei para a direita; se for para a direita, irei para a esquerda” (Gênesis 13:9).

Nos versos seguintes vê-se que Ló escolheu ir para o leste, ou esquerda de onde estavam pacificando em definitivo a situação familiar. Apesar de a bíblia trazer à tona outros cenários separatistas, a exemplo da clássica descrição do Juízo Final no capítulo 25 do livro de Mateus, é na baixa idade média – especificamente durante a revolução francesa – que a dicotomia esquerda/direita ganha novos contornos e sentido.

Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade explodem ancorados na filosofia iluminista e no ritmo da revolução industrial inglesa.

Ironicamente, num período em que se erigiu uma estatueta à deusa da razão, onde o teocentrismo fora substituído pelo antropocentrismo, às classes sociais insatisfeitas com o desumano absolutismo de então, lideradas pelos burgueses se reúnem em assembleia agrupados como numa encenação do Juízo bíblico: uns à direita e outros à esquerda.

A bifurcação esquerda/direita, a partir das transformações ocorridas durante a revolução francesa, deixa de ter um sentido tão somente físico geográfico transmudando para o campo da ciência que, conforme o filósofo francês Destutt de Tracy, atribui a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo.

Tais ideais continuam a influenciar, mesmo em pleno século XXI, todos os países. Apesar da grande contribuição advinda da revolução europeia, ressalte-se a incapacidade em definir qual dos modelos é o correto. Não se pode tratar como que uma receita de bolo fosse.

A exemplo da Venezuela, país declaradamente governado por uma filosofia de esquerda e a Argentina, de direita. Ambos com graves problemas socioeconômico.

Dá-se a entender que o desafio da ciência política e sociológica não é dos mais fáceis, pois em se tratando dos aspectos evolutivos da mente humana, sua complexidade a partir de uma tridimensionalidade, torna-se no mínimo incoerente restringi-los num agrupamento bilateral.

O conceito de direita e esquerda, no mundo contemporâneo, deixa de ser o meio e torna-se o destino. Acima de tudo direita e esquerda não são necessariamente opostos, são complementos.



“Leitor de cabeçalho”

Para o leitor que não se aprofunda no conteúdo, principalmente a geração moderna, acelerada, que não tem muito tempo e paciência para saber qual o contexto

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