MACEIÓ/AL — O afastamento de Gustavo Pontes de Miranda Oliveira do comando da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), na manhã desta terça-feira (16), abalou não apenas a estrutura administrativa do Estado, mas também uma das famílias mais tradicionais de Alagoas.
Alvo central da Operação Estágio IV da Polícia Federal, Gustavo Pontes não é um político de carreira, mas um médico com “pedigree” histórico e décadas de serviço público, cuja biografia agora é confrontada por acusações de desvio de dinheiro do SUS, lavagem de dinheiro e compra de imóveis de luxo.
O BR104 traçou o perfil do gestor que foi de “nome técnico” a investigado pela Justiça Federal.
1. O Peso do Sobrenome
Aos 53 anos, Gustavo Pontes carrega no documento a herança de dois dos maiores intelectuais que o Brasil já produziu.
- Ele é sobrinho-bisneto do jurista Pontes de Miranda, gênio do Direito brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras.
- Também é sobrinho-bisneto da psiquiatra Nise da Silveira, a alagoana que revolucionou o tratamento mental no mundo, humanizando o cuidado com pacientes psiquiátricos.
A ironia do destino é que, enquanto sua tia-avó lutou para humanizar a saúde, Gustavo é acusado pela PF de permitir um esquema que desviava verba de tratamentos básicos (fisioterapia) para enriquecimento ilícito.
2. O Médico de Carreira
Diferente de gestores que caem de paraquedas em cargos públicos, Gustavo Pontes conhece a Sesau por dentro há mais de duas décadas.
- Formação: É médico ortopedista e traumatologista.
- Concursado: Ingressou na Sesau como servidor efetivo em 2002, atuando na linha de frente da Unidade de Emergência. Também é concursado da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) desde 2004.
- Gestão Hospitalar: Antes de ser secretário, construiu reputação como gestor hospitalar. Passou pela direção médica do Hospital Dr. Arsênio Moreira (Santana do Ipanema) e, mais recentemente, foi diretor médico do Hospital Veredas, em Maceió.
3. A Gestão e a Queda
Gustavo assumiu a Secretaria de Saúde em maio de 2022 e foi mantido no cargo em 2023 sob a justificativa de ser um “perfil técnico e experiente”. Sua missão era dar continuidade às obras de hospitais e gerir o orçamento bilionário da pasta.
No entanto, a Operação Estágio IV aponta que foi justamente durante sua gestão (2023-2025) que o esquema floresceu. O detalhe que chama atenção dos investigadores é a natureza da fraude: o desvio milionário envolvia uma clínica de ortopedia (sua especialidade médica) cobrando por “fisioterapias fantasmas”.
Para a Polícia Federal, o médico concursado e herdeiro de intelectuais teria cruzado a linha da legalidade, utilizando o cargo para facilitar contratos emergenciais sem licitação e ocultar patrimônio em bens de luxo, como a pousada em Porto de Pedras.
Afastado por 180 dias por ordem do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), Gustavo Pontes agora terá que defender não apenas seu cargo, mas a história de seu sobrenome.
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