Economia

Farinha que paga as contas: como mulheres de um sítio em AL criaram renda recorrente com produção artesanal

Com um forno a lenha de mais de 70 anos e muita garra, associação no Sítio Pau D'Arco une gerações, resgata a cultura da farinhada e coloca produtos na merenda escolar da região.

Forno de farinha em casa de farinha tradicional no interior de Alagoas
Forno de farinha em funcionamento em uma casa de farinha tradicional; imagem registrada pela equipe do BR104.

UNIÃO DOS PALMARES / SÃO JOSÉ DA LAJE (AL) — No Sítio Pau D’Arco, localizado na divisa entre União dos Palmares e São José da Laje, o cheiro da mandioca torrada não é apenas um sinal de tradição; é o cheiro da liberdade. Um grupo de mulheres rurais decidiu transformar uma prática centenária — a farinhada artesanal — em um motor de independência financeira, rompendo o ciclo de dependência dos maridos.

A reportagem do Portal BR104 foi até a comunidade conhecer a Associação, que hoje beneficia cerca de 40 famílias. O que era apenas um costume antigo virou um negócio organizado que já abastece a merenda escolar de municípios da região através do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar).

A alma da produção está nas mãos de Seu Carlos, de 85 anos. Ele é a memória viva do processo. Diferente das casas de farinha modernas e motorizadas, ali o trabalho preserva a raiz cultural: o forno é a lenha e tem mais de 60 anos, e o mexer da massa é no braço.

“Desde que eu nasci, meu padrasto já fazia farinha. Ele morreu, eu continuei e estou até hoje. Antigamente era na roda, empurrando a mandioca no braço. Hoje tem motor [para ralar], mas o forno de barro e o jeito de mexer continuam manuais”, ensinou Seu Carlos à reportagem.

Mulheres peneirando massa de mandioca em casa de farinha no interior de Alagoas

Mulheres peneiram a massa de mandioca em uma casa de farinha tradicional, durante a produção artesanal de farinha; imagem registrada pelo BR104.

“O dinheiro é nosso”

Mas a grande revolução do Sítio Pau D’Arco não está no forno, e sim na mentalidade. A associação foi criada para empoderar as mulheres locais. Marileide, presidente da entidade, explica que o objetivo era tirar a mulher do campo da invisibilidade.

Uma das associadas resumiu o sentimento de mudança com uma frase impactante:

“A gente colocou a mão na massa para ter o próprio dinheiro. Para não precisar pedir ao marido e ouvir: ‘você quer pra quê?’. Hoje temos o nosso e usamos como queremos.”

Além da Farinha

Para garantir renda o ano todo, o grupo diversificou. Além da farinha de mandioca artesanal, elas produzem e comercializam:

  • Geleias (pimenta com maracujá, pitaya);
  • Doces e Bolos;
  • Licores artesanais;
  • Tortas e panquecas.

A produção abastece feiras livres em São José da Laje, Ibateguara, União dos Palmares e Santana do Mundaú, além de chegar às escolas públicas, garantindo alimento sem conservantes para os estudantes.

Resumo da Iniciativa

  • Local: Sítio Pau D’Arco (Zona da Mata).
  • Protagonistas: Mulheres da Associação local e Seu Carlos (85 anos).
  • Diferencial: Processo artesanal em forno a lenha de 60 anos.
  • Impacto: Independência financeira feminina e fornecimento para merenda escolar (PNAE).

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