Enquanto líderes mundiais desembarcam em Belém para discutir a redução das emissões de carbono na COP30, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chama atenção por um detalhe incômodo: o barco usado como hospedagem oficial da comitiva presidencial consome cerca de 4 mil litros de diesel — um dos combustíveis mais poluentes do planeta.
O episódio virou símbolo de uma contradição: o chefe de Estado que promete liderança global na agenda verde chega ao maior evento ambiental do mundo a bordo de uma embarcação movida a combustível fóssil.
A viagem do Iana 3, barco alugado pela Presidência, começou em Manaus (AM) e seguiu até Belém (PA), um trajeto de 1.650 km pelo rio Amazonas. O motor, de fabricação nacional, gasta 50 litros de diesel por hora, navegando a cerca de 20 a 30 km/h. A ida leva cinco dias, e o retorno, sete, por causa da contracorrente.
O combustível, segundo apuração do Poder360, é diesel comum, já que o uso de biodiesel é praticamente inexistente na região. A manutenção do motor é feita a cada 100 horas de viagem.
Mesmo sendo classificado como barco de luxo, empresários do turismo fluvial afirmam que o Iana 3 não tem características luxuosas — o diferencial é o tamanho dos aposentos, escolhido pelo Planalto para priorizar conforto.
A Secretaria de Comunicação (Secom) informou que a diária média é de R$ 2.647 por pessoa, mas não divulgou quantos hóspedes estão a bordo, nem o valor total do contrato. O Planalto afirma que a escolha seguiu critérios de segurança, logística e economicidade, conforme o Decreto nº 4.332/2002.
Ainda assim, o contraste é inevitável. Enquanto o discurso oficial fala em “neutralidade climática” e “transição verde”, o barco presidencial libera fumaça e carbono no principal rio do país — exatamente no momento em que o mundo debate alternativas energéticas.
Ambientalistas chamaram o episódio de “símbolo da hipocrisia ambiental” que ronda conferências internacionais. Segundo analistas, o caso evidencia como a prática política ainda está longe do discurso ecológico, mesmo em países que se dizem líderes na pauta.
Durante a estadia em Belém, Lula e a primeira-dama Janja já usaram o barco para visitar comunidades quilombolas em Acará (PA), acompanhados pelos ministros Anielle Franco e Paulo Teixeira. O barco segue atracado na Base Naval de Val de Cães.
Empresários do setor afirmam que a dependência de embarcações manauaras mostra outro problema: a falta de infraestrutura fluvial sustentável em Belém, cidade que sediará a COP30. Estima-se que 20 barcos grandes vindos de Manaus estejam operando na capital paraense durante o evento.
Em um encontro dedicado à redução de combustíveis fósseis, a imagem de um barco movido a diesel cortando o Amazonas virou a metáfora perfeita da incoerência ambiental global — discursos limpos, práticas sujas.
