O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 prevê R$ 158,6 bilhões para o Programa Bolsa Família e cria uma margem que torna possível elevar o valor médio pago às famílias para cerca de R$ 700 por mês, mantido o desenho atual do benefício. A possibilidade aparece em simulações técnicas a partir dos dados de beneficiários e do custo do programa, mas, até agora, não há decisão oficial do governo federal para reajustar os valores.
Os cálculos consideram o cenário de outubro de 2025, quando o benefício médio foi estimado em R$ 683,42 e o programa atendeu cerca de 18,9 milhões de famílias. Com esse patamar, a despesa anualizada ficaria abaixo da dotação reservada para 2026, gerando uma folga na casa de bilhões de reais. Essa diferença, segundo análise publicada pelo Poder360 com base nos números oficiais, seria suficiente para aproximar a média dos pagamentos de R$ 700, sem descumprir o valor previsto no Orçamento.
A projeção considera tanto o piso de R$ 600 por família quanto os adicionais previstos em lei, pagos a crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes. O eventual aumento não significaria a criação de um novo piso fixo de R$ 700, mas sim uma elevação da média resultante da combinação entre o benefício básico e os valores complementares.
O que muda com o espaço aberto no Orçamento
O PLOA de 2026 foi encaminhado ao Congresso com a previsão específica para o Bolsa Família, indicando a intenção do governo de garantir a manutenção do programa dentro das regras atuais do arcabouço fiscal. Documentos oficiais, como a mensagem presidencial que acompanha o Orçamento, reforçam o compromisso de preservar o mínimo de R$ 600 e os benefícios adicionais, com dotação suficiente para atender milhões de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza.
Na prática, a combinação entre a dotação de R$ 158,6 bilhões e o número mais baixo de beneficiários após o pente-fino no Cadastro Único abre três caminhos principais:
- manter o valor médio atual, com maior folga de segurança fiscal;
- ampliar o número de famílias atendidas, reduzindo eventuais filas;
- autorizar um reajuste que leve a média paga para patamar próximo de R$ 700.
O cálculo que aponta a possibilidade de aumento considera ainda o impacto da revisão cadastral conduzida pelo governo. Desde 2023, a equipe técnica promove cruzamentos de dados para excluir registros considerados irregulares ou incompatíveis com as regras do programa. A redução do total de beneficiários diminui a despesa mensal e, por consequência, amplia o espaço para discutir ajustes de valor.
O que dizem o governo e os especialistas
Até o momento, integrantes do governo federal evitam cravar qualquer reajuste para 2026. A orientação pública tem sido de cautela: o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) associa a folga orçamentária principalmente à atualização do Cadastro Único e afirma que mudanças nos valores do Bolsa Família não são automáticas, nem estão confirmadas. A equipe econômica, por sua vez, monitora o cumprimento das metas do arcabouço fiscal e o comportamento da arrecadação antes de assumir novos compromissos permanentes.
Especialistas em políticas sociais ouvidos por economistas e órgãos de pesquisa destacam que um aumento médio para R$ 700 teria impacto relevante no orçamento das famílias mais pobres, especialmente em estados como Alagoas, onde a dependência do programa é maior e a transferência de renda injeta recursos diretamente na economia local. Por outro lado, analistas fiscais alertam que qualquer reajuste precisa ser sustentável diante de possíveis frustrações de receita em 2026 e do desafio de equilibrar despesas obrigatórias e investimentos.
Além disso, o debate ocorre às vésperas de um ano eleitoral. Embora a legislação permita reajustes em programas sociais, o uso político de benefícios costuma ser acompanhado de perto por órgãos de controle e pela Justiça Eleitoral. Eventual decisão de elevar a média do Bolsa Família para cerca de R$ 700 em 2026 deverá ser analisada também sob esse prisma, o que reforça a necessidade de transparência nos critérios e na fundamentação técnica.
Impacto para Alagoas e para quem depende do programa
Em estados do Nordeste, como Alagoas, o Bolsa Família representa parcela significativa da renda de milhares de famílias e do movimento do comércio em cidades de pequeno e médio porte. Um aumento médio, se confirmado, tende a reforçar o consumo básico de alimentos, remédios e serviços, com efeito direto na economia local.
Por outro lado, o pente-fino que ajudou a abrir espaço fiscal também gera preocupação entre beneficiários que temem cortes ou bloqueios. Organizações sociais e gestores municipais defendem que eventuais exclusões sejam bem fundamentadas e acompanhadas de canais de contestação acessíveis, para evitar que famílias vulneráveis fiquem sem proteção.
Até esta publicação, o governo federal não detalhou publicamente se usará a folga do Orçamento para ampliar o valor médio, aumentar o número de contemplados ou apenas garantir segurança fiscal. A discussão deve avançar durante a tramitação do PLOA no Congresso e nas próximas manifestações oficiais do MDS e da área econômica.




