Em fevereiro de 2025, pouco mais de 533 mil famílias recebiam o Bolsa Família em Alagoas. Em outubro, o número caiu para 499.197 famílias. A diferença indica que cerca de 34 mil famílias deixaram de constar na folha de pagamento ao longo do ano, segundo dados consolidados do governo federal para o estado.
A redução não significa, automaticamente, fraude ou corte irregular. Ela resulta da combinação de fatores: atualização cadastral obrigatória, aplicação das regras de renda, cruzamento de bases com outros benefícios e vínculos formais de trabalho, além dos efeitos das condicionalidades de saúde e educação. Na prática, porém, muita gente só descobre o problema ao encontrar o pagamento bloqueado, reduzido ou cancelado.
Segundo gestores municipais ouvidos pela reportagem e normas vigentes do programa, essa variação está dentro do esperado em períodos de pente-fino mais rigoroso. Ao mesmo tempo, especialistas em assistência social alertam que falhas de informação e dificuldades de acesso ao cadastro podem empurrar famílias vulneráveis para fora do benefício sem que compreendam exatamente o motivo.
O que muda para as famílias em Alagoas
A queda de aproximadamente 33,8 mil famílias em oito meses representa impacto direto na renda de milhares de lares, especialmente nos municípios do interior, onde o Bolsa Família é um dos principais componentes do orçamento doméstico.
Quando uma família deixa a folha ou sofre bloqueio, isso costuma ocorrer em quatro situações principais:
- Renda acima do limite
O cruzamento automático de dados pode identificar remunerações formais, benefícios ou movimentações que elevem a renda per capita além do permitido. Nesses casos, o benefício é reduzido, suspenso ou cancelado de forma gradativa, conforme as regras de transição. - Cadastro desatualizado
Falta de atualização no Cadastro Único é uma das principais causas de bloqueio. Endereço desatualizado, mudança na composição familiar, ausência de registro de nascimento ou documentos corrigidos podem gerar inconsistências. - Descumprimento de condicionalidades
As regras preveem acompanhamento de saúde de crianças, vacinação em dia, pré-natal de gestantes e frequência escolar mínima para crianças e adolescentes. Quando essas exigências não são registradas nos sistemas, a família entra em escala progressiva de alerta, bloqueio e, se a situação persiste, suspensão ou cancelamento. - Inconsistências formais ou auditorias
Situações como cadastro duplicado, registro de pessoas já falecidas, divergência entre declarações e bases oficiais ou suspeita de uso indevido levam à revisão específica e podem resultar na retirada do benefício.
Em Alagoas, a redução na quantidade de famílias atendidas em 2025 ocorre em um contexto de maior rigor nacional. Ao mesmo tempo, municípios de grande porte, como Maceió e Arapiraca, concentram uma parte expressiva dos beneficiários e precisam garantir estrutura para orientar, acompanhar e registrar corretamente as condicionalidades. Quando isso falha, famílias que ainda são elegíveis podem ser penalizadas por falta de informação ou por problemas operacionais.
Como evitar bloqueio ou perda do Bolsa Família
Para as famílias alagoanas que ainda dependem do programa, algumas medidas reduzem o risco de corte inesperado:
- Manter o CadÚnico atualizado
Sempre que houver mudança de endereço, composição familiar, trabalho, renda ou escola das crianças, a atualização deve ser feita no CRAS ou ponto de atendimento indicado pela prefeitura. Em geral, recomenda-se revisão cadastral a cada dois anos ou sempre que houver alteração relevante. - Acompanhar a frequência escolar
Crianças e adolescentes devem estar matriculados e com presença mínima exigida. A falta de lançamento da frequência pelas escolas também pode gerar alerta, por isso é importante checar com a unidade de ensino se o registro está sendo feito. - Cumprir as condicionalidades de saúde
Levar crianças para vacinação, pesagem e avaliação nutricional, garantir consultas de pré-natal e atender convocações das unidades de saúde. Quando a família não comparece, o sistema marca descumprimento e isso é levado em conta na análise. - Consultar mensagens oficiais
Acompanhar extratos de pagamento, aplicativo oficial do programa e comunicados no momento do saque. Mensagens de “atenção”, “aviso” ou “bloqueio” indicam que há pendências a resolver. - Procurar o CRAS ao menor sinal de problema
Em caso de bloqueio ou ausência de pagamento, o caminho é buscar atendimento no Centro de Referência de Assistência Social do município, apresentar documentos, esclarecer a situação e, quando cabível, pedir revisão.
Na prática, quem mantém o cadastro atualizado, cumpre as condicionalidades e atende às convocações oficiais reduz de forma significativa o risco de perder o benefício. A queda registrada entre fevereiro e outubro de 2025 em Alagoas, embora expressiva, não significa que todas essas famílias foram excluídas de forma definitiva ou indevida, mas expõe a necessidade de transparência maior dos órgãos responsáveis e de orientação ativa à população.
