São Paulo

Assassinato de ex-delegado expõe avanço do crime organizado no litoral paulista

Em dezembro de 2023, após ser vítima de assalto na mesma cidade, relatou o medo de se tornar alvo.

Atualizado 5 meses atrás
Ruy Ferraz Fontes foi executado a tiros em Praia Grande, SP — Foto: Prefeitura de Praia Grande e Reprodução
Ruy Ferraz Fontes foi executado a tiros em Praia Grande, SP — Foto: Prefeitura de Praia Grande e Reprodução

O assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral de São Paulo e reconhecido pelo enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC), ocorrido nesta segunda-feira (15) na Praia Grande, trouxe novamente os holofotes para a escalada da violência no litoral paulista. A morte do ex-chefe da Polícia Civil não é um episódio isolado, mas o desfecho mais recente de uma série de confrontos que transformaram a região em um dos principais palcos da disputa entre forças de segurança e o crime organizado.

Fontes já havia demonstrado preocupação com a própria segurança. Em dezembro de 2023, após ser vítima de assalto na mesma cidade, relatou o medo de se tornar alvo: “Combati esses caras durante tantos anos e agora eles sabem onde moro”. O temor do ex-delegado reflete o cenário apontado pelo secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, que descreveu a Baixada Santista como “um território em disputa”.

 A Operação Escudo foi deflagrada após assassinato de PM na Baixada Santista — Foto: Reprodução

O estopim da crise

A atual onda de violência tem como marco o assassinato do soldado da Rota Patrick Bastos Reis, em julho de 2023, durante patrulhamento no Guarujá. O caso levou ao início da Operação Escudo, que mobilizou 600 policiais e resultou na morte de 28 suspeitos em pouco mais de um mês.

Embora defendida pela SSP como medida para sufocar o tráfico de drogas, a operação foi alvo de denúncias de abusos, incluindo execuções e torturas. O episódio reabriu o debate sobre o uso de câmeras corporais, após acusações de que policiais teriam encoberto equipamentos para simular confrontos.

Escalada em 2024

Mesmo após o fim da Operação Escudo, a violência não cessou. Em janeiro de 2024, o soldado Marcelo Augusto da Silva foi morto na Rodovia dos Imigrantes, em Cubatão, reacendendo os embates. No mês seguinte, dois agentes — o soldado Samuel Wesley Cosmo e o cabo José Silveira dos Santos — também foram assassinados em Santos, provocando nova resposta policial que resultou em 27 mortes.

Entre os mortos estava o traficante conhecido como “Danone”, apontado como articulador de atentados contra policiais. Meses depois, o desaparecimento e assassinato do soldado Luca Romano Angerami e ataques a bases da PM mostraram que o Guarujá continuava sendo o epicentro da tensão.

 Operação da Polícia Civil, Militar e Gaeco, em 2024, mirou milícia do PCC que atuava em Guarujá — Foto: Divulgação

Governo defende estatísticas

Apesar da percepção de aumento da violência, a SSP-SP destaca que os índices gerais de criminalidade apresentaram queda histórica. Entre janeiro e julho de 2025, a região de Santos registrou 58 homicídios e dois latrocínios, os menores números da série histórica. Os roubos também atingiram patamar mínimo.

Segundo a secretaria, o trabalho policial tem sido mais produtivo. Só nos sete primeiros meses de 2025, foram feitas quase 8 mil prisões, 399 armas foram apreendidas e mais de 12 toneladas de drogas retiradas de circulação. Para o governo, os dados comprovam o fortalecimento do combate às facções.

Ainda assim, a execução do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes reforça que o litoral paulista segue como campo de batalha entre o Estado e o crime organizado, com consequências diretas para a sensação de segurança da população.