A Polícia Civil de Pernambuco apreendeu nesta quarta-feira (4) um adolescente de 17 anos, morador de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, acusado de liderar uma organização criminosa virtual responsável por uma série de crimes graves. Entre eles, estão chantagem sexual, indução à automutilação, distribuição de pornografia infantil, racismo, ameaças a autoridades, cyberbullying e invasão de sistemas governamentais.
A ação foi coordenada pela Operação End Game, que contou com apoio do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. A investigação, iniciada em 2024, identificou que o grupo comandado pelo adolescente possuía ramificações em ao menos cinco estados e fazia uso de plataformas online para coagir, expor e explorar jovens — muitos com menos de 15 anos.
Segundo o delegado Joel Venâncio, o menor demonstrava comportamento frio, estratégico e completamente desprovido de empatia. “Ele se apresentava como líder de um grupo que promovia verdadeiros rituais de violência psicológica e física. As vítimas eram coagidas a se mutilar, participar de transmissões ao vivo com práticas degradantes e, muitas vezes, submetidas à humilhação pública”.
Crimes transmitidos ao vivo
As sessões comandadas pelo grupo criminoso eram gravadas e transmitidas por redes sociais e fóruns fechados. Em uma das cenas registradas pela polícia, uma jovem foi obrigada a engolir uma lâmina de barbear e, logo após, aparece cuspindo sangue. O material foi classificado pelos investigadores como “extremamente perturbador”.
A dinâmica envolvia abordagens pelas redes sociais, onde o adolescente seduzia e manipulava crianças e adolescentes, exigindo o envio de fotos íntimas. Com esse conteúdo em mãos, iniciava-se a chantagem: ou obedeciam às ordens do grupo — como se automutilar em vídeo — ou teriam as imagens vazadas publicamente.
Participação em atentado no Rio de Janeiro
O mesmo grupo também foi responsável por coordenar um ataque no Rio de Janeiro, em que um menor lançou um coquetel molotov contra um homem em situação de rua, enquanto a ação era exibida ao vivo na internet. Segundo o delegado, isso fazia parte de um “desafio” em que os participantes demonstravam sua lealdade por meio de atos violentos.
“O grupo funcionava como uma seita digital. Quanto mais cruel fosse o desafio, maior era o reconhecimento do participante. Essa cultura de valorização da violência, da mutilação e da dominação psicológica foi o que mais nos alarmou”, relatou Joel Venâncio.
Ameaças a autoridades e histórico de reincidência
Essa não foi a primeira vez que o adolescente foi apreendido. Em 2024, ele havia sido internado por 45 dias após ameaçar uma delegada da Polícia Civil de São Paulo, chegando a enviar detalhes sobre a rotina pessoal dela e de seus familiares. Mesmo após a internação, retornou às mesmas práticas criminosas, com ainda mais organização e impacto.
Durante sua apreensão, nesta quarta-feira, ele teria debochado dos policiais. “Ele perguntou, rindo, se o mandado era de prisão ou apenas de busca. Disse que, se fosse só busca, voltaria a dormir. Isso revela um traço perverso e de total desumanização”, explicou o delegado.
Invasão a sistema do CNJ
A lista de crimes inclui ainda a invasão do sistema de mandados de prisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A polícia confirmou que o adolescente teve acesso indevido a dados sigilosos do sistema, reforçando a capacidade técnica do grupo, que também atuava com vazamento de informações confidenciais e derrubada de sites.
As autoridades destacaram que as investigações continuam para identificar e responsabilizar outros membros da organização, inclusive adultos que podem ter financiado ou se beneficiado da atividade criminosa.
Vítimas em diversos estados
A operação já identificou mais de 200 vítimas em Pernambuco, São Paulo, Bahia, Minas Gerais e no Distrito Federal. Os crimes incluem abuso psicológico, extorsão digital, indução ao suicídio e prática de estupro virtual.
As vítimas são, majoritariamente, adolescentes com perfis vulneráveis, que muitas vezes não relataram os abusos por medo de represálias ou vergonha. O material apreendido será analisado por equipes especializadas, e todas as vítimas serão acompanhadas por profissionais de saúde mental.
O jovem foi encaminhado ao Centro de Internação Provisória (Cenip), onde ficará à disposição do Judiciário. O caso está sendo tratado como prioridade nacional devido ao alto impacto social e à complexidade dos crimes cometidos por meio digital.
Especialistas em segurança cibernética e saúde mental também foram acionados para colaborar com o caso, que pode abrir precedentes para investigações de outras redes criminosas com modus operandi semelhante.
